São três da manhã e a tua cabeça começou a falar
Porque acordas a meio da noite e a tua mente começa a ensaiar conversas. Como tentar silencia-la pode manter-te ainda mais desperto.
Sumário

Acordar durante a noite com a mente a ensaiar conversas ou a antecipar o dia seguinte pode acontecer quando existem preocupações, decisões ou assuntos que continuam a ocupar espaço. A tentativa de controlar cada pensamento e de obrigar o sono a regressar pode aumentar ainda mais a atenção sobre aquilo que te mantém desperto.

 
A resposta não passa por lutares com a mente nem por tentares deixá-la completamente vazia. Passa por reconhecer o pensamento sem continuares a desenvolvê-lo e regressar ao momento presente. A Origem ajuda-te a observar os padrões que estão a escolher por ti e a criar espaço entre aquilo que sentes e a forma como respondes.


Acordas às três da manhã. Talvez tenha sido a sede, um ruído ou nada que consigas identificar. Abres os olhos e a casa está em silêncio. Durante alguns segundos, ainda não existe problema nenhum.
 
Depois chega um pensamento.
 
Lembras-te de uma conversa que precisas de ter. Imaginas aquilo que vais dizer, a resposta da outra pessoa e a forma como vais reagir. Ou começas a organizar o dia seguinte, a rever uma decisão e a tentar resolver uma situação que ainda nem aconteceu.
 
Olhas para o relógio. São 3:14. Fechas os olhos e tentas obrigar-te a adormecer. Pouco depois, voltas a ver as horas. A noite continua a passar e a tua mente parece cada vez mais desperta.
 
Acordar durante a noite pode acontecer por muitas razões. O que vale a pena observar é aquilo que fazes quando acontece. Há noites em que voltas a adormecer sem quase reparares. Noutras, um único pensamento transforma-se rapidamente numa conversa inteira.
 

O espaço que o dia não deixou

Durante o dia, a tua atenção está distribuída por tarefas, mensagens, pessoas e decisões. Há sempre alguma coisa a pedir uma resposta.
 
À noite, esse movimento diminui. O silêncio cria espaço para assuntos que foram sendo adiados enquanto tratavas do que parecia mais urgente.
 
É possível que não tenhas tido tempo para pensar numa conversa que te preocupa. Também pode existir uma decisão que tens evitado ou uma situação sobre a qual ainda não sabes o que sentes. Quando acordas, a mente encontra finalmente esse espaço e começa a preenchê-lo.
 
Isso não significa que cada pensamento da madrugada revele uma verdade escondida. Àquela hora, os problemas podem parecer maiores, as soluções mais urgentes e as consequências mais definitivas. Ainda assim, os temas que regressam podem mostrar-te aquilo que continua a ocupar espaço, mesmo quando durante o dia dizes que está tudo bem.
 

Porque ensaias conversas que ainda não aconteceram

Ensaiar uma conversa pode dar uma sensação temporária de preparação. Se imaginares várias respostas possíveis, podes acreditar que não serás apanhado de surpresa. Se encontrares as palavras certas antecipadamente, podes conseguir evitar um conflito ou a sensação de não saber o que dizer.
 
O problema é que uma conversa imaginada não tem limites. Por cada resposta que inventas, surge uma nova explicação para preparar.
 
O mesmo acontece quando tentas resolver um problema futuro. Começas numa tarefa concreta e, pouco depois, já estás a antecipar tudo o que pode correr mal, embora não exista nada que possas fazer naquele momento.
 
A mente continua a trabalhar porque cada novo pensamento parece aproximar-te de algum controlo. Muitas vezes, porém, terminas no mesmo lugar: mais cansado e sem uma resposta que não pudesse esperar pela manhã.
 
Pode ser mais útil perguntar não apenas como resolvo isto agora?, mas também porque sinto que tenho de resolver isto agora?
 

Quanto mais tentas parar, mais atenção dás

Quando percebes que estás desperto, a reação mais natural é tentar interromper os pensamentos. Dizes para ti: não penses nisso, tens de dormir.
 
Só que essa luta mantém a tua atenção presa ao mesmo tema. Passas a observar se o pensamento já desapareceu, a verificar as horas e a calcular quanto tempo falta até teres de te levantar. O sono transforma-se numa tarefa que precisas de cumprir.
 
Ao assunto junta-se o receio de não voltares a dormir e de passares o dia seguinte cansado.
 
Em vez de tentares expulsar o pensamento, pode ser mais útil reconhecer o que está a acontecer: a minha mente começou a tentar resolver isto agora. Não precisas de continuar a conversa nem de provar que o pensamento está errado. Podes apenas adiar a resposta.
 
Há assuntos que merecem atenção. Só não precisam de ser resolvidos às três da manhã.
 

Voltar ao presente sem exigir silêncio

Regressar ao presente não significa esvaziar completamente a cabeça. Significa deixar de acompanhar cada pensamento até ao fim.
 
Podes reparar no peso do corpo sobre a cama, na temperatura do quarto ou no ritmo da respiração. Quando a conversa imaginada voltar, reconhece-a e regressa novamente ao que estás a sentir naquele momento.
 
Provavelmente vais precisar de fazer isso várias vezes. A mudança não está em impedir o pensamento de aparecer. Está em não lhe ofereceres sempre a continuação.
 
Se existe um assunto que receias esquecer, podes escrevê-lo numa frase curta e voltar a ele no dia seguinte, quando conseguires pensar com mais clareza.
 
Também vale a pena observar o que acontece durante o dia. Tens algum espaço para perceber como estás? Ou só paras quando tudo fica em silêncio e já devias estar a dormir?
 

O que tentas manter sob controlo

Nem todas as noites inquietas têm o mesmo significado. Por vezes existe uma preocupação real. Noutras, a mente está apenas cansada e mais reativa. Ainda assim, alguns pensamentos repetidos mostram como tentas antecipar tudo para te sentires seguro.
 
Podes ensaiar uma conversa porque receias não ser compreendido. Podes rever uma decisão porque tens medo de errar. Podes organizar mentalmente o dia seguinte porque sentes que tudo depende de ti.
 
A necessidade de prever cada reação e preparar cada resultado pode acompanhar-te também durante o dia. A madrugada apenas torna esse movimento mais visível.
 
É este tipo de piloto automático que começamos a observar na Origem. Ao longo de sete dias, o programa ajuda-te a perceber os padrões que estão a escolher por ti, a compreender o que os mantém ativos e a criar espaço entre aquilo que sentes e a forma como respondes.
 
Não se trata de esvaziar a mente nem de prometer noites sem pensamentos. Trata-se de reconhecer quando estás a gastar energia a tentar controlar aquilo que ainda não aconteceu.
 
Da próxima vez que acordares e a primeira conversa começar a formar-se, não tens de a terminar. Podes reconhecer que ela existe e deixá-la para uma hora em que consigas realmente fazer alguma coisa com ela.
 
Às três da manhã, nem todos os problemas precisam de uma resposta. Alguns precisam apenas que não lhes entregues o resto da noite.

Escrito por Carina Barbosa
Ajudo-te a encontrares-te novamente quando sentes que já não sabes quem és.
Há mais de 10 anos que acompanho pessoas que procuram compreender aquilo que estão a viver, reconhecer os padrões que influenciam as suas escolhas e construir uma vida mais verdadeira. Ao longo deste percurso, já acompanhei mais de 8000 pessoas.

O meu trabalho é ajudar-te a ver com mais clareza aquilo que ainda não consegues identificar e a escolher uma nova direção com maior consciência.