Dizes sim a todos menos a ti
Porque agradar se tornou um reflexo. E como cada 'sim' que não sentes te afasta, aos poucos, daquilo que realmente queres
Sumário

Dizer sempre que sim para não desiludir ninguém pode tornar-se uma resposta tão automática que deixas de perceber o que realmente queres. Aceitas tarefas que não te pertencem, alteras os teus planos e colocas as expectativas dos outros à frente das tuas antes de existir uma decisão consciente.

 
O custo maior não está apenas nas horas que perdes. Está na dificuldade crescente em reconhecer as tuas preferências, os teus limites e a vida que gostarias de construir. A mudança começa quando recuperas a pausa entre o pedido e a resposta. A Origem ajuda-te a reconhecer estes padrões e a criar espaço para escolheres de forma mais consciente.


O telemóvel vibra. É alguém a pedir-te uma coisa: ficares mais meia hora, tratares de um assunto que não é teu ou ires a um lugar onde não te apetece estar.
 
Antes de leres a mensagem até ao fim, já sabes o que vais responder.
 
“Claro.” “Sem problema.” “Deixa comigo.”
 
Escreves, envias e só depois sentes o desconforto. Talvez seja um aperto no estômago, alguma irritação ou a sensação de que voltaste a entregar um pedaço do teu dia sem perceber se querias fazê-lo.
 
A partir daí, o tempo continua a ser teu apenas no calendário. Estás a cumprir uma obrigação que aceitaste, a contar as horas e a perguntar-te porque não conseguiste simplesmente dizer que não.
 
Este gesto pode parecer pequeno. Acontece depressa, não provoca uma discussão e deixa a outra pessoa satisfeita. Quando se repete muitas vezes, porém, começa a ocupar grande parte da tua vida.
 
O “sim” deixa de ser uma resposta. Passa a ser o caminho mais rápido para evitar o desconforto de desiludir alguém.
 

O sim que chega antes da tua escolha

Entre um pedido e uma resposta deveria existir um pequeno espaço. É nesse instante que podes perguntar: quero fazer isto? Tenho disponibilidade? Faz sentido para mim?
 
São perguntas simples, mas importantes. Permitem-te perceber aquilo que sentes antes de assumires uma responsabilidade.
 
Quando estás habituado a agradar, esse espaço quase desaparece. O “sim” chega primeiro. Só depois percebes que não tinhas tempo, que já estavas cansado ou que preferias ter escolhido outra coisa.
 
Isto acontece porque a pausa também traz desconforto. Se não responderes imediatamente, podes imaginar que a outra pessoa vai interpretar o silêncio como falta de vontade. Se recusares, pode ficar aborrecida, desiludida ou pensar que já não pode contar contigo.
 
Aceitar resolve essa tensão depressa. A outra pessoa fica satisfeita e tu não tens de lidar, naquele momento, com a possibilidade de desapontar.
 
O custo chega mais tarde, quando já estás comprometido com uma decisão que não sentiste verdadeiramente como tua.
 

O que tentas evitar quando dizes sempre que sim

Nem todos os “sins” que dás resultam de vontade de ajudar. Alguns servem para proteger uma relação, uma imagem ou o lugar que aprendeste a ocupar na vida dos outros.
 
Podes ter sido reconhecido durante muito tempo como a pessoa disponível. A que resolve, se adapta e não cria problemas. Esse papel pode trazer valorização e fazer-te sentir importante.
 
Também pode tornar difícil mostrar limites.
 
Quando toda a gente conta contigo, dizer que não parece uma mudança demasiado grande. Receias que te considerem egoísta, menos generoso ou menos presente. Podes até sentir que estás a falhar, apesar de estares apenas a reconhecer que não tens disponibilidade para tudo.
 
O receio de desiludir pode ser tão forte que preferes desiludir-te em silêncio. Alteras os teus planos, deixas o descanso para depois e colocas novamente uma necessidade tua no fim da lista.
 
Por fora, a relação permanece tranquila. Por dentro, começa a acumular-se cansaço e ressentimento.
 

Quando os outros começam a decidir por ti

As pessoas aprendem a relacionar-se contigo através daquilo que mostras. Quando aceitas quase sempre, começam a contar com a tua disponibilidade.
 
Nem sempre existe falta de consideração. Muitas vezes, os outros acreditam que não te importas, porque foi isso que ouviram de ti. Se respondes repetidamente “por mim, tudo bem”, é natural que assumam que realmente está tudo bem.
 
A dificuldade está em esperares que percebam aquilo que nunca chegaste a dizer.
 
É possível que gostasses que alguém reparasse que estás cansado. Que te perguntasse antes de acrescentar mais uma responsabilidade. Que reconhecesse o esforço que fazes para estar sempre disponível.
 
Mas, enquanto continuas a responder automaticamente, as pessoas veem capacidade onde tu já sentes sobrecarga.
 
É assim que um padrão individual se transforma numa dinâmica relacional. Tu aceitas porque tens dificuldade em recusar. Os outros pedem porque estão habituados a ouvir que sim.
 
Com o tempo, podes sentir que a tua vida está organizada à volta das necessidades de toda a gente, enquanto aquilo que te faz falta permanece sempre à espera.
 

A conta não se paga apenas com tempo

O custo mais evidente de dizer que sim a tudo está nas horas ocupadas e nos compromissos que não querias assumir.
 
Existe, porém, um efeito mais profundo. Quando te habituas a responder primeiro aos outros, deixas de consultar aquilo que sentes. As tuas preferências começam a parecer menos claras e as decisões tornam-se mais difíceis.
 
Alguém pergunta onde queres ir, o que te apetece fazer ou de que forma gostarias de viver uma determinada situação. Em vez de uma resposta, surge um vazio.
 
Não significa que não tenhas vontade própria. Significa que passaste demasiado tempo a adaptar-te antes de a escutares.
 
Cada “sim” automático reforça a ideia de que aquilo que os outros esperam é mais importante do que aquilo que tu queres. Aos poucos, deixas de saber se escolheste uma vida porque fazia sentido para ti ou porque era a opção que criava menos desconforto à tua volta.
 
Talvez seja por isso que, mesmo fazendo tudo corretamente, podes sentir que alguma coisa deixou de te representar.
 

Recuperar a pausa antes da resposta

A mudança não exige que passes a recusar todos os pedidos. Existem compromissos, relações e responsabilidades que queremos assumir mesmo quando exigem esforço.
 
A diferença está em perceberes quando estás a aceitar por escolha e quando estás apenas a evitar uma reação.
 
Da próxima vez que alguém te pedir alguma coisa, experimenta não responder imediatamente. Podes dizer: “Deixa-me confirmar e já te digo.” Esta frase simples devolve-te algum espaço.
 
Nesse intervalo, observa a tua disponibilidade, a tua vontade e o motivo que te levaria a aceitar. Se a resposta continuar a ser sim, será um sim mais consciente. Se perceberes que não podes ou não queres, podes recusar sem transformar o limite numa rejeição da outra pessoa.
 
Dizer “não consigo desta vez” não apaga tudo aquilo que já fizeste nem significa que deixaste de te importar. Mostra apenas que também estás presente nas decisões que afetam a tua vida.
 
É este espaço entre o que acontece e a forma como respondes que trabalhamos na Origem. Ao longo de sete dias, o programa ajuda-te a reconhecer os padrões que têm escolhido por ti e a perceber o que está por trás das tuas reações, para começares a responder com mais consciência.
 
Não se trata de aprender uma técnica para dizer que não. Trata-se de compreender porque o “sim” se tornou tão automático e voltar a incluir-te antes de responder.
 
É possível que continues a ajudar muitas pessoas. Também podes continuar disponível em vários momentos. Mas existe uma diferença importante entre ofereceres o teu tempo porque queres e entregá-lo porque receias o que acontecerá se não o fizeres.
 
Quando alguém voltar a pedir-te alguma coisa, a primeira resposta não tem de pertencer logo aos outros. Pode começar com uma pergunta dirigida a ti: o que é que eu quero responder?

Escrito por Carina Barbosa
Ajudo-te a encontrares-te novamente quando sentes que já não sabes quem és.
Há mais de 10 anos que acompanho pessoas que procuram compreender aquilo que estão a viver, reconhecer os padrões que influenciam as suas escolhas e construir uma vida mais verdadeira. Ao longo deste percurso, já acompanhei mais de 8000 pessoas.

O meu trabalho é ajudar-te a ver com mais clareza aquilo que ainda não consegues identificar e a escolher uma nova direção com maior consciência.