Porque o pescoço e os ombros podem ficar mais tensos nos dias em que passas demasiado tempo a conter aquilo que pensas.
tensão no pescoço e nos ombros pode ter várias causas, desde a postura ao esforço físico, ao sono ou ao stress. Em alguns dias, porém, o corpo fica particularmente tenso depois de passares horas a controlar reações, evitar conflitos e guardar aquilo que gostarias de ter dito.
O problema não está em escolher o silêncio. Há momentos em que calar é sensato. A dificuldade aparece quando essa é sempre a tua resposta e nunca regressas àquilo que ficou por dizer. A mudança começa quando reconheces o padrão, compreendes o que receias e aprendes a comunicar os teus limites com mais clareza. É esta observação regular que a
Chegas ao fim do dia, sentas-te e levas a mão à nuca quase sem pensar.
O pescoço está rígido. Os ombros parecem mais próximos das orelhas do que deviam. Rodas a cabeça para um lado, depois para o outro, e sentes aquela zona pesada que já conheces.
A primeira explicação aparece depressa: foi a cadeira. O computador. O tempo que passaste a olhar para o telemóvel.
Tudo isso pode ter contribuído.
Mas, enquanto massajas a base do pescoço, lembras-te também de uma reunião em que alguém falou contigo de uma forma que não gostaste. Da resposta que começaste a preparar e acabaste por não dar. De uma conversa em casa em que disseste “está tudo bem” para não aumentar o problema.
A postura fez parte do dia. A contenção também.
Não significa que as palavras tenham ficado literalmente guardadas nos músculos. Significa que passaste várias horas a controlar o que mostravas, a antecipar reações e a manter o corpo preparado para situações que te deixaram desconfortável.
E é possível que nunca tenhas reparado no esforço que isso exige.
O momento em que te contrais antes de te calares
Estás numa conversa e alguém diz alguma coisa que te incomoda. Antes de responderes, o corpo já reagiu. A respiração muda ligeiramente. O maxilar aperta. Os ombros sobem. A frase começa a formar-se dentro de ti.
Depois pensas melhor. Não queres criar um conflito. Não sabes como a outra pessoa vai reagir. Escolhes deixar passar. Parece mais fácil.
E não dizes nada.
Há situações em que essa escolha é sensata. Nem tudo precisa de ser respondido no instante em que acontece. Por vezes, precisamos de tempo para compreender o que sentimos e escolher melhor as palavras.
A dificuldade aparece quando o silêncio nunca é uma pausa. É sempre o fim da conversa.
Não dizes naquele momento e também não regressas ao assunto mais tarde. A resposta fica para depois, o limite não é explicado e aquilo que te incomodou transforma-se apenas em mais uma coisa que tens de ultrapassar.
O corpo pode continuar tenso porque a situação terminou por fora, mas tu ainda permaneces atento ao que poderia acontecer se falasses.
A paz que exige que te deixes de fora
Aprendeste, muitas vezes, a evitar conversas difíceis porque valorizas a paz.
Percebes rapidamente quando uma pessoa não está disponível para ouvir. Sabes quando uma palavra pode criar tensão e quando é mais fácil seres tu a adaptar-te.
Essa capacidade pode ter protegido muitas relações. Também pode ter-te ensinado que a tranquilidade dos outros depende do teu silêncio.
Dizes que sim quando querias pedir tempo. Aceitas um comentário para não parecer demasiado sensível. Concordas com uma decisão porque não queres ser a pessoa que dificulta tudo.
A conversa continua tranquila, mas tu deixas de estar completamente presente nela. Com o tempo, podes começar a sentir que ninguém percebe aquilo que precisas. Só que muitas dessas necessidades nunca chegaram a ter lugar nas relações, porque foste tu a retirá-las antes de alguém poder conhecê-las.
A tensão pode não vir apenas do que ficou por dizer. Pode vir do esforço constante de seres uma pessoa diferente daquela que a situação te estava a pedir para ser.
Quando o corpo continua de serviço
Há dias em que passas muitas horas atento ao ambiente. Na reunião, observas a reação da chefia. Em casa, tentas perceber o humor de quem está contigo. Numa conversa, escolhes cuidadosamente cada palavra para não criar uma interpretação errada.
Mesmo depois de a situação terminar, o corpo pode demorar a abrandar. Os ombros continuam levantados. A respiração permanece curta. O maxilar não relaxa completamente. Só reparas nisso ao fim do dia, quando finalmente paras e deixas de ter uma tarefa a ocupar-te.
Não existe nada de misterioso neste processo. Quando estamos preocupados, irritados ou sob pressão, é comum contrairmos os músculos sem perceber. A questão importante não é concluir imediatamente que a dor tem uma origem emocional.
É observar se existe um padrão. O pescoço fica mais tenso depois de determinados dias? Reparas que apertas o maxilar em certas conversas? Os ombros sobem quando sentes que não podes dizer aquilo que pensas?
O corpo não te está necessariamente a dar uma resposta. Pode estar apenas a chamar a tua atenção para a forma como estás a viver determinados momentos.
Nem tudo o que deixas passar deixou de te afetar
Às vezes, acreditamos que lidámos bem com uma situação porque conseguimos continuar. Não discutimos. Não chorámos. Mantivemos o trabalho a avançar e ninguém percebeu que alguma coisa nos tinha incomodado.
Mas continuar não significa necessariamente compreender. Podes passar o resto do dia a repetir mentalmente a conversa. Podes sentir irritação com outra pessoa que não teve nada a ver com o assunto. Ou podes chegar à noite com uma tensão difícil de explicar, porque nunca reconheceste aquilo que aconteceu.
Não precisas de transformar cada comentário numa conversa profunda. Também não precisas de confrontar todas as pessoas que te deixam desconfortável.
Pode bastar começares por admitir para ti:
isto incomodou-me.
Essa frase simples devolve-te à situação. Permite-te perceber se há alguma coisa que precisa realmente de ser dita, se existe um limite a colocar ou se apenas precisas de tempo para deixar o momento passar.
A consciência não serve para criares problemas onde eles não existem. Serve para não viveres como se nada te afetasse até ao dia em que já não consegues distinguir o que sentes.
Falar não significa reagir no calor do momento
Recuperar a tua voz não exige que digas tudo imediatamente. Podes reconhecer que uma conversa te incomodou e decidir retomá-la mais tarde. Podes dizer: “Preciso de pensar sobre isto.” Ou: “Gostava de voltar a este assunto quando estivermos mais tranquilos.”
Também podes colocar um limite de forma simples: “Não me senti confortável com a forma como isso foi dito.” “Não consigo assumir mais essa responsabilidade.” “Vejo esta situação de outra maneira.”
Estas frases não garantem que a outra pessoa concorde contigo. Nem impedem que exista desconforto. Mas deixam de te colocar sempre no papel de quem tem de absorver a tensão inteira para proteger a relação.
Quando começas a expressar aquilo que é importante, também ganhas informação. Percebes quais relações conseguem incluir a tua voz e quais dependiam do facto de estares sempre disposto a calá-la.
Criar espaço antes de chegares ao fim do dia
A massagem pode aliviar. Melhorar a postura, ajustar o ecrã, movimentar o corpo e descansar também podem fazer diferença. Nada disso precisa de ser desvalorizado para reconheceres que existe outra pergunta possível:
como vivi este dia por dentro?
Quantas vezes te contraíste? Quantas vezes disseste que estava tudo bem sem saberes ainda se estava? Quantas conversas deixaste para depois sem saberes quando seria esse depois?
É esta observação que fazemos na
Sintonia. Um espaço regular para perceber o que se foi acumulando durante a semana, reconhecer os padrões que te fazem calar ou ultrapassar aquilo que sentes e encontrar formas mais conscientes de responder.
Não para dizeres tudo o que pensas. Nem para transformares cada desconforto num conflito. Para deixares de acreditar que manter a paz implica retirar-te sempre da conversa.
Uma dor persistente, intensa, acompanhada de fraqueza, dormência, febre, trauma ou outros sintomas também merece avaliação por um profissional de saúde. Ter consciência não significa atribuir ao emocional aquilo que pode precisar de cuidados clínicos.
Da próxima vez que sentires os ombros a subir durante uma conversa, não tens de os forçar imediatamente a descer. Repara primeiro no que aconteceu. Pode não haver nada para resolver. Pode existir apenas uma reação momentânea.
Mas também pode existir uma frase que continuas a adiar, não por falta de palavras, mas pelo receio do que pode mudar quando finalmente as disseres.