Não foi o dia que te cansou. Foi quem tiveste de ser
Porque podes chegar ao fim de um dia comum sem energia, mesmo quando nada de extraordinário aconteceu.
O cansaço ao fim de um dia comum pode ter muitas causas. Em alguns dias, porém, o esforço maior não está nas tarefas, mas na atenção constante à forma como és recebido pelos outros. Medes palavras, escondes desconfortos, demonstras entusiasmo e adaptas-te ao ambiente antes de perceberes aquilo que realmente sentes.
Quando este comportamento se repete, podes afastar-te tanto da tua forma natural de estar que qualquer interação começa a exigir esforço. A mudança não implica dizer tudo o que pensas nem deixar de considerar os outros. Começa quando reconheces onde estás a adaptar-te por escolha e onde deixaste de saber como estar sem representar um papel. É esta consciência regular que a
Chegas ao fim do dia, entras no carro ou sentas-te no sofá e o corpo cede.
Sentes um peso atrás dos olhos. A cara está tensa. Há uma vontade de não falar com ninguém durante algum tempo, embora o dia não tenha tido nada de particularmente difícil.
Olhas para trás e tentas perceber de onde veio aquele cansaço.
Não houve nenhuma crise. Não fizeste um esforço físico extraordinário. Foram reuniões, conversas, tarefas habituais e as pequenas decisões de sempre.
Ainda assim, parece que passaste o dia inteiro a fazer força. Nem sempre o esforço está naquilo que fizeste. Às vezes, está em tudo aquilo que controlaste enquanto fazias.
Na forma como escolheste as palavras. Na expressão que mantiveste. Na resposta que suavizaste. No entusiasmo que mostraste quando só querias algum silêncio.
O dia parecia normal porque ninguém viu esse trabalho. É possível que nem tu tenhas reparado nele.
O esforço que não aparece na agenda
Há tarefas que sabemos que nos vão cansar. Uma reunião longa, um problema difícil ou um dia cheio de compromissos.
Outras exigências são menos visíveis.
Entrar numa sala e tentar perceber imediatamente o ambiente. Observar se alguém está incomodado. Escolher uma forma de falar que não pareça demasiado firme. Mostrar disponibilidade quando já não existe grande espaço dentro de ti.
Nada disto ocupa um lugar no calendário. Ainda assim, acompanha-te durante horas.
É possível que tenhas sorrido numa conversa porque não querias parecer distante. Concordaste com uma decisão para não prolongar o assunto. Respondeste “está tudo bem” porque explicar o que se passava parecia demasiado complicado.
Cada gesto é pequeno. Visto isoladamente, parece apenas educação ou capacidade de adaptação.
Quando passas o dia inteiro a fazê-lo, existe uma diferença constante entre aquilo que sentes e aquilo que mostras.
É essa distância que pode tornar um dia comum mais exigente do que parece.
Adaptar-te também foi uma forma de cuidar
Não começaste a observar os outros sem motivo.
Podes ter aprendido cedo que algumas pessoas reagiam melhor quando escolhias cuidadosamente as palavras. Que ser fácil, disponível e compreensivo evitava conflitos. Que mostrar cansaço, irritação ou uma opinião diferente criava mais problemas do que guardar tudo para ti.
Adaptar-te ajudou-te a pertencer.
Também pode ter feito de ti uma pessoa atenta, capaz de perceber os outros e de circular por ambientes diferentes sem criar tensão.
Não existe nada de errado nessa capacidade.
O problema aparece quando ela deixa de ser uma escolha e passa a ser a única forma que conheces de estar com outras pessoas.
Já não decides adaptar-te porque aquele contexto o pede. Fazes isso automaticamente, mesmo quando estás entre pessoas próximas ou em situações onde poderias baixar a guarda.
Continuas a ler a sala. Continuas a corrigir a expressão. Continuas a perguntar-te como estás a ser interpretado.
Enquanto isso, sobra pouco espaço para uma pergunta mais simples:
como estou eu?
Quando já não sabes qual era a tua resposta
Depois de muito tempo a adaptar-te, pode tornar-se difícil perceber aquilo que dirias se não estivesses preocupado com a reação dos outros.
Alguém pergunta onde queres ir e respondes que tanto faz. Pergunta o que pensas e procuras primeiro perceber qual é a opinião mais segura. Surge um convite e avalias imediatamente aquilo que esperam de ti, antes de perceberes se tens vontade.
Não significa que não tenhas preferências. Talvez te tenhas habituado apenas a consultá-las depois de consultares toda a gente.
Aos poucos, a tua resposta espontânea começa a chegar cada vez mais tarde. Às vezes, só aparece quando a conversa já terminou.
No caminho para casa, percebes aquilo que gostarias de ter dito. Ao fim do dia, reconheces que não querias ter aceitado aquela tarefa. Quando finalmente ficas sozinho, sentes a irritação que não te permitiste mostrar.
É possível que parte do cansaço venha desse atraso constante em relação a ti.
Passas o dia presente nas situações, mas só descobres como as viveste quando já saíste delas.
Cordialidade não exige que desapareças
Considerar os outros faz parte de viver em relação.
Nem sempre podemos dizer exatamente aquilo que nos passa pela cabeça. Existem contextos profissionais, compromissos e pessoas que merecem cuidado na forma como comunicamos.
A questão não está em deixares de ter filtros.
Está em perceberes quando o cuidado se transforma numa tentativa permanente de não incomodar.
Podes ser cordial sem fingires entusiasmo. Podes respeitar alguém e manter uma opinião diferente. Podes estar mais calado num dia em que não tens vontade de manter uma conversa animada.
Nem todas as expressões neutras significam desagrado. Nem todas as respostas curtas são falta de educação. Nem todos os limites são uma rejeição.
É possível que tenhas assumido durante muito tempo a responsabilidade de garantir que toda a gente se sente confortável contigo. É uma responsabilidade impossível. E pode deixar-te sem energia para perceber se tu próprio estás confortável naquela situação.
A distância entre quem és e quem mostras
É fácil dizer que a solução está em “seres tu”. Na vida real, isso é mais complexo.
Todos mostramos partes diferentes de nós em contextos diferentes. Não falamos da mesma forma numa reunião, com a família ou entre amizades. Isso não significa necessariamente falta de autenticidade.
A dificuldade aparece quando, em todos esses lugares, sentes que estás a representar uma forma de estar que exige esforço.
Quando nunca podes estar mais calado. Quando precisas de parecer bem mesmo nos dias em que não estás. Quando tens de suavizar todas as opiniões para que ninguém sinta desconforto.
A distância vai crescendo.
Por fora, continuas disponível e funcional. Por dentro, sentes que ninguém te conhece completamente. Pode ser que já nem saibas o que mostrarias se deixasses de ajustar cada detalhe.
É esta distância que trabalhamos na
Sintonia. Não para passares a agir da mesma forma em todos os contextos, mas para compreenderes onde estás a escolher adaptar-te e onde o medo da reação dos outros continua a escolher por ti.
Ao longo do tempo, observar estes padrões permite-te recuperar alguma clareza sobre aquilo que sentes, aquilo que queres e a forma como gostarias de estar nas tuas relações.
Permitires-te estar com a energia que tens
A mudança não precisa de começar numa grande conversa ou numa decisão radical.
Pode começar numa interação pequena.
Entras numa sala e reparas que estás imediatamente a tentar animar o ambiente. Antes de o fazeres, perguntas se queres realmente assumir esse lugar.
Alguém te pede uma opinião e sentes vontade de a suavizar até já quase não parecer tua. Experimentas dizê-la com cuidado, mas sem a apagar.
Num dia em que tens menos energia, permites-te responder de forma simples, sem construíres uma explicação longa para justificar o teu silêncio.
São mudanças discretas. Que muitas pessoas nem reparem nelas. Tu vais reparar.
Vais perceber que não precisas de oferecer sempre uma versão mais disponível, mais alegre ou mais fácil de ti para continuares a ser aceite.
Isso não significa que o cansaço desapareça. O cansaço persistente também pode ter causas físicas, emocionais ou relacionadas com o sono e merece atenção quando interfere com a tua vida.
Mas é possível que alguns dias deixem de exigir tanto. Não porque tenhas feito menos tarefas. Porque deixaste de fazer, ao mesmo tempo, o trabalho invisível de corrigir constantemente a pessoa que és.
Da próxima vez que chegares ao sofá sem energia, experimenta não perguntares apenas
o que fiz hoje?
Pergunta também:
Em quantos momentos senti que não podia simplesmente estar como estava?