A exaustão que não traz resultados
Porque o teu corpo não desliga quando finalmente podes parar. E o que a ocupação constante pode estar a impedir-te de ver.
Sumário

Estar sempre ocupado pode parecer produtividade, mas nem toda a atividade nos aproxima da vida que queremos construir. Por vezes, passamos o dia a reagir ao que aparece e chegamos ao fim exaustos, sem conseguirmos identificar aquilo que realmente avançou.

 
Quando o movimento abranda, surgem perguntas que durante o dia ficam escondidas entre tarefas: o que queremos, o que já não faz sentido e porque continuamos a viver da mesma forma. A mudança começa quando ganhamos consciência daquilo que estamos a evitar e criamos espaço para escolher, em vez de apenas reagir. É essa observação regular que a Sintonia ajuda a manter.


Há um momento ao fim do dia que reconheces bem. Fechas o computador, terminas a última tarefa ou arrumas aquilo que ainda estava fora do lugar. Finalmente sentas-te no sofá.
 
Durante alguns segundos, não há nada a pedir a tua atenção. Depois, quase sem pensares, pegas no telemóvel. Ou lembras-te de uma mensagem a que ainda podias responder. Podes reparar numa gaveta desarrumada ou decidas que aquele é um bom momento para tratar de uma coisa que podia perfeitamente esperar.
 
O corpo está cansado. Ainda assim, continuas à procura de alguma coisa para fazer.
 
Às vezes, nem percebes que estás a fazê-lo. A mão vai ao telemóvel antes de teres decidido o que querias ver. Levantas-te antes de saberes exatamente o que ias buscar. Parece que o dia terminou, mas uma parte de ti continua de serviço.
 

Estar ocupado não significa estar a avançar

Há dias em que fazes muitas coisas. Respondeste a mensagens, resolveste problemas, estiveste disponível para várias pessoas e trataste de assuntos que apareceram sem aviso.
 
Chegas ao fim cansado. Quando tentas perceber aquilo que realmente avançou, a resposta nem sempre é clara. O dia foi preenchido, mas não existiu espaço para aquilo que era importante para ti. Existe uma diferença entre fazer uma coisa com intenção e passar o dia a responder ao que aparece. As duas exigem energia, mas não deixam a mesma sensação.
 
Quando sabes o que estás a construir, até o esforço pode ter algum sentido. Há uma ligação entre aquilo que fazes hoje e o lugar onde queres chegar.
 
Quando apenas reages, o dia transforma-se numa sucessão de urgências. Fazes o que está à frente, depois o que aparece a seguir, e continuas até já não conseguires fazer mais.
 
O movimento dá a sensação de que alguma coisa está a acontecer. Mas nem sempre te aproxima daquilo que queres mudar. Pode ser por isso seja por isso que podes estar constantemente ocupado e, ao mesmo tempo, sentir que a tua vida continua parada.
 

O que aparece quando o ruído diminui

Durante o dia, há pouco espaço para perguntas. As tarefas dão-te uma estrutura. Sabes o que fazer a seguir, mesmo que não saibas exatamente porque continuas a fazê-lo.
 
Quando tudo abranda, essa estrutura desaparece por alguns momentos. E podem surgir pensamentos que não estavam presentes enquanto estavas ocupado. Podes reparar que já não gostas da rotina que tens. Que uma parte do teu trabalho deixou de fazer sentido. Que tens adiado uma decisão porque não sabes qual é o caminho certo.
 
Também podes simplesmente sentir um vazio difícil de explicar. Uma sensação de que estás cansado de viver sempre da mesma forma, embora não saibas ainda o que gostarias de fazer diferente.
 
Nesse momento, o telemóvel oferece-te uma saída rápida. Uma tarefa pequena também serve. Qualquer coisa que volte a ocupar a atenção e te poupe, durante mais algum tempo, de olhar para aquilo que ainda não tem resposta.
 
Não significa que pegues no telemóvel porque estás conscientemente a fugir da tua vida. Podes ter aprendido a preencher todos os espaços antes de perceberes o que poderia aparecer dentro deles.
 

A ocupação que te protege e te mantém no mesmo lugar

Há comportamentos que começaram por nos ajudar.
 
Estar sempre atento pode ter-te permitido resolver problemas, cuidar dos outros e manter muitas coisas a funcionar. Talvez tenhas sido durante anos a pessoa em quem toda a gente podia confiar. Essa capacidade tornou-se parte da forma como te reconheces.
 
O problema aparece quando só te sentes útil enquanto estás a fazer alguma coisa. Quando parar parece falta de disciplina. Quando uma tarde sem resultados visíveis te provoca mais desconforto do que um dia inteiro de cansaço.
 
Continuar ocupado mantém-te num lugar conhecido. Enquanto estás a executar, não precisas de decidir. Não tens de reconhecer que algumas escolhas mudaram ou que a vida que construíste já não representa completamente a pessoa em que te tornaste.
 
A próxima tarefa dá-te sempre uma resposta simples: faz isto. A pergunta sobre a tua vida não é tão simples. É possível que seja por isso que a exaustão se repete. Não porque não descanses o suficiente, mas porque regressas sempre ao mesmo modo de viver assim que recuperas alguma energia.
 

O descanso não resolve aquilo que continua sem direção

Descansar é importante. Nenhuma pessoa consegue viver constantemente em esforço sem consequências. Mas há cansaços que não desaparecem apenas com uma noite de sono ou um fim de semana mais tranquilo.
 
Podes descansar o corpo e continuar a acordar para uma vida que te exige muito sem te devolver clareza. Podes tirar alguns dias e regressar ao mesmo conjunto de respostas automáticas, às mesmas prioridades e à mesma sensação de estar sempre a cumprir sem saber bem para quê.
 
Nesse caso, o descanso pode não estar a falhar. Pode ser que lhe estejas a pedir que resolva uma questão que pertence a outro lugar. A pausa pode recuperar energia. Não consegue decidir por ti aquilo que queres fazer com ela.
 
É por isso que, quando finalmente paras, o silêncio pode tornar-se desconfortável. Não porque exista alguma coisa errada contigo, mas porque nesse espaço voltas a encontrar perguntas que o movimento não resolveu.
 
Continuo a querer viver assim? O que estou a construir com os meus dias? O que tenho adiado porque ainda não sei por onde começar?
 

Clareza não é ter a vida toda decidida

Às vezes, falamos de direção como se fosse necessário descobrir uma grande resposta.
 
Ter clareza pode significar apenas reconhecer aquilo que já não queres continuar a repetir. Perceber qual é a decisão que tens evitado. Identificar a coisa mais importante que continua sempre a ser ultrapassada pelas urgências.
 
Ainda não sabes exatamente para onde vais. Mas podes começar a perceber aquilo que não te está a levar a lado nenhum. Essa consciência muda a forma como vives os momentos de pausa.
 
O silêncio deixa de ser apenas o lugar onde aparecem perguntas sem resposta. Pode tornar-se o espaço onde começas, aos poucos, a ouvi-las sem fugir imediatamente. Não para encontrares uma solução perfeita. Para voltares a participar nas escolhas que constroem a tua vida.
 

Criar um espaço onde não estás apenas a reagir

A mudança pode começar num momento muito pequeno. Da próxima vez que terminares o dia e a mão procurar imediatamente o telemóvel, repara no gesto antes de o completares. Pergunta-te o que estás realmente à procura.
 
Podes querer apenas distrair-te, e não há nada de errado nisso. Também podes estar cansado e precisar de não pensar durante algum tempo. Mas podes perceber que estás a evitar ficar alguns minutos contigo porque não sabes o que vais encontrar.
 
Não precisas de transformar esse momento num exercício, nem de te obrigar a permanecer em silêncio. Basta começares a reconhecer a diferença entre escolher uma distração e procurar qualquer coisa que te impeça de sentir.
 
É esta observação que a Sintonia ajuda a criar com regularidade. Um espaço para compreender aquilo que foi acontecendo durante a semana, reconhecer os padrões que continuam a escolher por ti e voltar ao que é realmente importante antes de entrares novamente no movimento dos dias.
 
Não é um método para dominares a rotina nem uma forma de eliminares todos os comportamentos que te cansam. É um lugar onde podes parar sem ficares abandonado às mesmas perguntas. Onde a consciência começa a transformar-se em escolhas mais claras e práticas.
 
Talvez continues a ter dias cheios. Existem fases em que é necessário resolver mais do que gostarias. A diferença está em não confundires uma vida preenchida com uma vida que faz sentido. Porque podes chegar ao fim do dia com tudo feito e, ainda assim, sentir que não estiveste verdadeiramente presente em nenhuma das tuas escolhas.
 
Da próxima vez que te sentares e sentires vontade de voltar imediatamente ao movimento, fica apenas o tempo suficiente para fazeres uma pergunta: O que é que eu não tenho conseguido ouvir enquanto estou sempre ocupado?

Escrito por Carina Barbosa
Ajudo-te a encontrares-te novamente quando sentes que já não sabes quem és.
Há mais de 10 anos que acompanho pessoas que procuram compreender aquilo que estão a viver, reconhecer os padrões que influenciam as suas escolhas e construir uma vida mais verdadeira. Ao longo deste percurso, já acompanhei mais de 8000 pessoas.

O meu trabalho é ajudar-te a ver com mais clareza aquilo que ainda não consegues identificar e a escolher uma nova direção com maior consciência.