Ficas sempre com o que sobra?
Porque é que pores-te sempre em último pode parecer bondade, quando muitas vezes revela uma ideia antiga sobre aquilo que mereces
Sumário

Ficares sempre com a parte menor, o pior lugar ou aquilo que sobra pode parecer um gesto de generosidade. Só que, muitas vezes, o gesto acontece antes de alguém te pedir alguma coisa. Pões-te de lado automaticamente, como se o melhor pertencesse naturalmente aos outros.

 
A verdadeira generosidade envolve escolha. Este reflexo acontece quase sem perceberes e pode ensinar-te, a ti e aos outros, que as tuas necessidades vêm sempre depois. A mudança começa quando te permites receber algo bom sem culpa nem sensação de que estás a tirar a alguém. É essa relação com o receber que o Merecimento ajuda a observar e a transformar.


Está toda a gente à mesa. Cortas o que há para dividir — a última fatia do bolo, os dois pedaços que restam ou a parte da travessa que ficou mais bem-feita. Sem pensares muito, serves os outros primeiro.
 
O melhor pedaço vai para o prato ao lado. Para ti fica o canto mais queimado, a parte mais pequena ou aquilo que restou depois de todos escolherem.
 
É possível que ninguém repare. É possível que tu própria quase não repares. O gesto acontece de forma tão automática que já faz parte da maneira como te moves no meio dos outros. Se alguém te perguntasse porque escolheste aquela parte, provavelmente dirias que para ti era indiferente.
 
E, naquele momento, até podia ser.
 
Mas começa a observar quantas vezes este gesto aparece noutros lugares. Sentas-te no lugar menos confortável do sofá. Deixas toda a gente escolher primeiro. No restaurante, reparas no prato que te apetecia, mas acabas por pedir outro porque é mais barato. Cedes o teu tempo, a tua vez ou o teu espaço antes de alguém te pedir que o faças.
 
Visto separadamente, cada gesto parece pequeno. Quando se repete em muitas áreas da vida, começa a revelar uma forma de estares nas relações: os outros avançam e tu adaptas-te ao lugar que ficou disponível.
 

O gesto que acontece antes de alguém pedir

A generosidade envolve uma escolha. Reparas que alguém gostaria de alguma coisa, consideras aquilo que tu própria queres e decides oferecer. Há consciência no gesto. Sabes que podias ficar com aquela parte e, ainda assim, preferiste dá-la.
 
Quando o movimento é automático, essa escolha quase não chega a acontecer.
 
A tua mão vai diretamente para o pedaço menor. Escolhes o lugar menos confortável. Dizes que qualquer opção serve, mesmo quando sabes perfeitamente qual preferias. Tudo isto acontece antes de alguém manifestar uma necessidade ou entrar em conflito contigo.
 
Em muitos casos, o gesto começa com uma antecipação. Observas a situação e tentas perceber o que os outros podem querer. Depois, afastas a tua própria preferência para evitar qualquer desconforto. No final, sentes algum alívio porque ninguém ficou desiludido, não houve discussão e também não tiveste de mostrar que querias alguma coisa.
 
É um mecanismo discreto. Aos olhos dos outros, pareces apenas uma pessoa fácil, disponível e generosa. Por dentro, podes estar a habituar-te a desaparecer das decisões antes de perceberes se querias participar nelas.
 
O gesto deixa então de ser apenas uma forma de cuidar. Passa também a ser uma forma de evitar o desconforto de ocupares espaço.
 

O que podes ter aprendido sobre receber

Este hábito raramente começa na fatia de bolo ou no lugar do sofá. Pode ter começado muito antes, numa altura em que percebeste que pedir criava tensão, que querer demasiado podia ser mal interpretado ou que era mais seguro facilitar a vida aos outros.
 
É possível que tenhas sido elogiada por seres a pessoa que nunca dava trabalho. A que compreendia tudo. A que cedia rapidamente. A que se adaptava sem protestar. Com o tempo, essa capacidade pode ter-se transformado numa regra silenciosa: primeiro os outros, depois tu.
 
A regra parece bondosa porque protege as relações e evita conflito. Também te permite manter a imagem de alguém disponível e atenta. O custo aparece quando já não sabes se estás a dar porque queres ou porque te sentes desconfortável sempre que recebes.
 
Pode tornar-se difícil aceitar um presente sem pensares imediatamente em como retribuir. Um elogio provoca vontade de o desvalorizar. Uma oportunidade boa traz culpa. Quando alguém te oferece a parte melhor, podes responder que não é preciso, que qualquer coisa serve ou que preferes que fique para outra pessoa.
 
A dificuldade não está apenas em pedir. Está também em permitir que alguma coisa boa permaneça contigo sem precisares de justificar, compensar ou devolver imediatamente.
 

O lugar que os outros aprendem a dar-te

Quando te colocas sempre em último, as pessoas à tua volta começam a contar com essa disponibilidade.
 
Isto nem sempre acontece por falta de consideração. Muitas vezes, os outros observam o modo como te posicionas e assumem que estás confortável com ele. Se dizes sempre que tanto faz, acabam por acreditar que realmente tanto faz. Se nunca mostras uma preferência, tornam-se menos atentos à possibilidade de ela existir.
 
A repetição transforma o gesto numa dinâmica. Tu cedes porque já estás habituada. Os outros aceitam porque foi assim que aprenderam a relacionar-se contigo. Ao fim de algum tempo, pode parecer que ninguém pensa em ti, quando durante anos foste mostrando que não era necessário fazê-lo.
 
É aqui que este padrão começa a criar ressentimento. Dás sem que te peçam, mas uma parte tua espera ser reconhecida. Facilitas tudo, mas gostarias que alguém reparasse no esforço. Ficas com o que sobra e, ao mesmo tempo, magoa-te que ninguém te ofereça a parte melhor.
 
O problema não está em seres generosa. Está em esperares que os outros descubram uma necessidade que tu própria tens escondido.
 

A pergunta que vale a pena fazer

Quando surge a possibilidade de ficares com a melhor parte, é provável que apareça uma dúvida: estarei a ser egoísta?
 
Essa pergunta coloca-te imediatamente numa comparação. Para ficares com algo bom, parece que alguém terá necessariamente de ficar prejudicado.
 
Pode ser mais útil perguntar: porque é que receber isto me deixa desconfortável?
 
É possível que sintas que estás a ocupar demasiado espaço. Que tenhas medo de parecer exigente. Que tenhas aprendido a associar bondade à capacidade de precisar de pouco. Ou que exista em ti uma ideia antiga de que aquilo que é bom deve ser entregue primeiro aos outros.
 
Quando olhas para o gesto desta forma, percebes que a questão nunca foi apenas o pedaço de bolo. O que está em causa é a facilidade com que te excluis daquilo que também está disponível para ti.
 

Aprender a incluir-te

A mudança pode começar em situações muito pequenas.
 
Da próxima vez que fores automaticamente para o pior pedaço, faz uma pausa. Pergunta-te qual escolherias se não estivesses preocupada com a reação de ninguém. Depois observa o que sentes quando consideras realmente essa possibilidade.
 
É possível que surja culpa. Também podes sentir necessidade de explicar a escolha ou de garantir que ninguém se importa. Essa resistência ajuda-te a perceber que o gesto nunca foi totalmente indiferente.
 
Escolher a parte que queres não significa passares a competir por tudo ou a ignorar os outros. Significa permitires que a tua preferência também faça parte da decisão. Em alguns momentos continuarás a dar, porque queres fazê-lo. Noutros, ficarás com aquilo que te apetece. A diferença está em existir uma escolha consciente.
 
Esta relação com o receber nem sempre muda apenas porque compreendeste racionalmente o padrão. Podes saber que tens tanto direito como qualquer outra pessoa e continuar a sentir o corpo encolher quando alguma coisa boa te é oferecida. No Merecimento, trabalhamos precisamente essa dificuldade em receber sem culpa, sem dívida e sem a sensação de que estás a tirar alguma coisa a alguém.
 
A generosidade torna-se mais verdadeira quando também te inclui. Quando podes oferecer sem te apagares e receber sem precisares de te justificar.

Escrito por Carina Barbosa
Ajudo-te a encontrares-te novamente quando sentes que já não sabes quem és.
Há mais de 10 anos que acompanho pessoas que procuram compreender aquilo que estão a viver, reconhecer os padrões que influenciam as suas escolhas e construir uma vida mais verdadeira. Ao longo deste percurso, já acompanhei mais de 8000 pessoas.

O meu trabalho é ajudar-te a ver com mais clareza aquilo que ainda não consegues identificar e a escolher uma nova direção com maior consciência.