O cansaço súbito que sentes depois de espreitares a vida dos outros
Como a comparação constante pode deixar-te mais distante da tua própria vida.
Sumário

Depois de passares alguns minutos a observar a vida dos outros, podes sentir desânimo, inquietação ou uma espécie de cansaço difícil de explicar. A mente compara o teu dia inteiro com momentos escolhidos da vida alheia e pode concluir, quase sem perceberes, que estás atrasado ou que te falta alguma coisa.

 
A resposta não exige que abandones o telemóvel, mas que reconheças o momento em que deixas de observar e começas a medir o teu valor por aquilo que os outros mostram. A Origem ajuda-te a identificar estes padrões e a devolver a atenção às escolhas e à vida que realmente te pertencem.


Estás na fila do supermercado, entre duas tarefas ou no sofá ao fim da tarde. Aparece um intervalo de alguns minutos e, quase sem pensares, pegas no telemóvel.
 
Deslizas pelo ecrã. Uma viagem. Uma promoção profissional. Uma casa nova. Um corpo diferente. Um casal a sorrir diante de uma paisagem perfeita.
 
Passam dois ou três minutos. Pousas o telemóvel e alguma coisa parece ter mudado.
 
Podes sentir um desânimo que não estava ali antes. O teu dia, que até há pouco parecia normal, pode começar a parecer pouco interessante. Não aconteceu nada de concreto, mas ficas com a sensação de que estás parado enquanto toda a gente avança.
 
O telemóvel não criou sozinho esse desconforto. Foi apenas o lugar onde encontraste uma sucessão de vidas com as quais começaste, quase sem perceber, a medir a tua.
 

O momento em que observar se transforma em comparar

Nem sempre olhamos para a vida dos outros com intenção de competir. Podemos sentir curiosidade, alegria por alguém ou apenas vontade de passar o tempo.
 
A comparação começa muitas vezes sem uma decisão consciente.
 
Vês alguém a viajar e pensas há quanto tempo não sais da rotina. Reparas numa conquista profissional e recordas aquilo que ainda não conseguiste fazer. Observas uma casa organizada e, de repente, o espaço onde estás parece mais pequeno, desarrumado ou distante daquilo que gostarias de ter.
 
Cada imagem deixa de ser apenas uma imagem e transforma-se numa pergunta dirigida à tua vida: onde estou eu em relação a isto?
 
A dificuldade está no tipo de resposta que surge. Raramente te lembras de tudo aquilo que já construíste ou das escolhas que fizeste por razões que continuam a ser importantes para ti. A atenção fixa-se sobretudo naquilo que parece faltar.
 
Em poucos minutos, podes atravessar dezenas de comparações. Uma isoladamente talvez não tenha grande efeito. Juntas, podem deixar-te com a sensação de que toda a gente está mais adiantada, mais realizada ou mais próxima da vida certa.
 

Comparas realidades que não conheces da mesma forma

Existe uma diferença importante entre a forma como conheces a tua vida e a forma como conheces a vida que aparece no ecrã.
 
Da tua, conheces tudo. Sabes como acordaste, o que te preocupa, as tarefas que ficaram por terminar e os dias em que não te sentes particularmente interessante. Conheces as dúvidas por trás de cada decisão e o esforço que muitas vezes não produz resultados visíveis.
 
Dos outros, recebes momentos escolhidos. Uma fotografia, uma frase ou alguns segundos de vídeo. Mesmo quando aquilo que mostram é verdadeiro, continua a ser apenas uma parte da realidade.
 
Não significa que todas as pessoas estejam a fingir ou a esconder uma vida infeliz. Significa apenas que nenhuma publicação consegue mostrar uma vida inteira.
 
Quando comparas essas duas perspetivas, colocas o conhecimento completo que tens sobre ti ao lado de uma seleção limitada da realidade de alguém. A comparação começa, por isso, com uma diferença que raramente tens em conta.
 
Conheces as hesitações por trás das tuas conquistas. Dos outros, vês sobretudo a conquista já concluída.
 

Quando a vida dos outros muda a forma como olhas para a tua

O maior efeito da comparação nem sempre está na vontade de ter aquilo que viste. Está na mudança que acontece na forma como passas a interpretar o que já tens.
 
Um dia tranquilo pode começar a parecer uma vida parada. Uma profissão estável pode parecer falta de ambição. Uma relação real, com rotina e dias menos interessantes, pode parecer insuficiente quando é colocada ao lado de uma imagem cuidadosamente escolhida.
 
Nada mudou na tua realidade durante aqueles minutos. Mudou a referência usada para a avaliar.
 
É possível que tenhas entrado nas redes sociais sem sentir que existia um problema e saias de lá à procura de alguma coisa que precisas urgentemente de corrigir. Queres produzir mais, viajar mais, mudar o corpo, a casa, o trabalho ou a relação.
 
Essa inquietação pode parecer motivação. Por vezes, mostra-te realmente um desejo que já existia. Noutras, é apenas uma reação ao contraste entre o momento comum que estás a viver e o momento extraordinário que acabaste de ver.
 
Antes de transformares esse desconforto numa nova meta, vale a pena perguntar: eu já queria isto antes de o ver?
 

A régua com que avalias a tua vida

A comparação torna-se especialmente desgastante quando precisas de observar os outros para perceber se estás bem.
 
Se alguém tem mais, sentes que tens pouco. Se alguém avança, interpretas a tua pausa como atraso. Se outra pessoa parece muito segura, começas a duvidar das escolhas que até então faziam sentido para ti.
 
A tua vida fica sujeita a uma régua que muda constantemente. Haverá sempre alguém mais novo, mais experiente, mais reconhecido ou num momento diferente do caminho.
 
Enquanto essa for a medida, nenhuma conquista consegue trazer descanso durante muito tempo. Basta aparecer uma nova referência para aquilo que alcançaste voltar a parecer insuficiente.
 
A pergunta mais importante pode não ser como chego ao lugar onde aquela pessoa está?, mas porque escolhi aquela vida como medida da minha?
 
Podes admirar uma pessoa sem querer o caminho que ela percorreu. Podes reconhecer uma conquista sem a transformar numa prova de que estás atrasado. Também podes desejar algo semelhante e, ainda assim, construir esse desejo de acordo com as tuas circunstâncias, prioridades e valores.
 

Devolver a atenção àquilo que é teu

A solução não passa necessariamente por deixares de seguir pessoas ou abandonares as redes sociais. Pode começar por observares a forma como te sentes enquanto as utilizas.
 
Repara nos conteúdos depois dos quais ficas mais inquieto, diminuído ou insatisfeito. Pergunta-te se estás apenas a observar ou se começaste a avaliar toda a tua vida a partir daquele momento.
 
Quando perceberes que a comparação começou, regressa ao que é concreto. O que estava a acontecer na tua vida antes de pegares no telemóvel? O que te fazia falta? O que estava bem e deixou de parecer suficiente apenas porque viste outra realidade?
 
Este regresso não serve para te convencer de que tens de estar satisfeito com tudo. Podes querer mudar muitas coisas. A diferença está em perceber se a mudança nasce de uma escolha tua ou da necessidade de acompanhar aquilo que os outros parecem estar a viver.
 
É este tipo de padrão que começamos a observar na Origem. Ao longo de sete dias, o programa ajuda-te a reconhecer aquilo que está a influenciar as tuas escolhas sem que percebas e a recuperar espaço para compreenderes o que realmente faz sentido para ti.
 
Quando a atenção está constantemente voltada para fora, torna-se mais difícil ouvir aquilo que acontece dentro de ti. Os desejos dos outros misturam-se com os teus, as prioridades tornam-se menos claras e qualquer caminho parece insuficiente quando comparado com todos os caminhos que vês.
 
A tua vida pode não precisar de parecer maior. Pode precisar apenas de voltar a ser vista sem estar constantemente ao lado da vida de outra pessoa.

Escrito por Carina Barbosa
Ajudo-te a encontrares-te novamente quando sentes que já não sabes quem és.
Há mais de 10 anos que acompanho pessoas que procuram compreender aquilo que estão a viver, reconhecer os padrões que influenciam as suas escolhas e construir uma vida mais verdadeira. Ao longo deste percurso, já acompanhei mais de 8000 pessoas.

O meu trabalho é ajudar-te a ver com mais clareza aquilo que ainda não consegues identificar e a escolher uma nova direção com maior consciência.