As férias que acabam e te devolvem com o mesmo cansaço como foste
Porque descansar o corpo durante duas semanas pode não chegar quando o ritmo que te esgota continua presente durante todo o ano.
Sumário

Regressar das férias ainda cansado não significa necessariamente que não soubeste descansar. Pode significar que chegaste ao período de pausa já muito sobrecarregado e que continuaste mentalmente ligado ao trabalho, às responsabilidades e à necessidade de aproveitar cada momento.

 
Duas semanas dificilmente alteram um ritmo construído ao longo de vários meses. A mudança passa por criar formas regulares de reconhecer e libertar aquilo que vais acumulando, em vez de guardar toda a recuperação para uma pausa anual. É esta relação mais consciente com o dia a dia que a Sintonia ajuda a construir.


Primeira segunda-feira depois das férias. O despertador toca à hora habitual e, durante alguns segundos, ainda sentes alguma distância da rotina. Lembras-te do mar, dos dias mais lentos e da sensação de finalmente teres parado.
 
Levantas-te, abres o computador e começas a ver as mensagens que ficaram por responder. A caixa de entrada está cheia, a lista voltou a crescer e existem várias pessoas à espera de alguma coisa.
 
Passa uma hora. Talvez duas.
 
A leveza com que regressaste começa a desaparecer e o corpo parece recuperar rapidamente o mesmo peso que tinha antes de partires. A meio da manhã, já te custa acreditar que estiveste duas semanas fora.
 
É nessa altura que surge a pergunta: como é possível estar novamente tão cansado se acabei de regressar de férias?
 
É possível que tenhas descansado. Também podes ter chegado às férias já com meses de cansaço acumulado e regressado exatamente ao ritmo que o criou.
 

O corpo foi de férias, mas a cabeça demorou a chegar

Nos primeiros dias, é possível que ainda estivesses ligado ao trabalho. Lembraste de uma mensagem que ficou sem resposta, de uma decisão que outra pessoa teria de tomar ou de uma tarefa que encontrarias quando regressasses.
 
Mesmo sem abrires o computador, continuavas a acompanhar mentalmente aquilo que tinhas deixado para trás.
 
O corpo estava noutro lugar, mas a atenção ainda se dividia entre o presente e tudo o que poderia estar a acontecer na tua ausência. Demoraste alguns dias a deixar de verificar, antecipar e organizar.
 
Quando começaste finalmente a abrandar, podes ter sentido outra pressão: a de aproveitar as férias da melhor maneira possível.
 
Era preciso visitar lugares, experimentar restaurantes, tirar fotografias, organizar programas e garantir que aqueles dias não seriam desperdiçados. O descanso transformou-se noutra tarefa a realizar corretamente.
 
Até ficar sem fazer nada pode trazer desconforto. Aparece a sensação de que devias estar a aproveitar mais, a sair mais cedo ou a fazer alguma coisa especial. Como se descansar só fosse válido quando também produzisse uma experiência digna de ser recordada.
 
Mudaste de cenário, mas algumas exigências permaneceram iguais. Continuaste a gerir, planear e avaliar se estavas a fazer o suficiente.
 

Quando também comparas a forma como descansas

Durante as férias, o telemóvel continua por perto. Vês destinos mais distantes, hotéis mais bonitos e pessoas que parecem estar a viver dias mais interessantes do que os teus.
 
Uma viagem que te estava a saber bem pode começar a parecer pequena. Um dia tranquilo passa a parecer pouco aproveitado. Em vez de descansares dentro da experiência que escolheste, começas a medi-la pelas experiências que os outros mostram.
 
A comparação não precisa de estragar completamente as férias para alterar a forma como as vives. Basta introduzir a sensação de que poderias estar noutro lugar, a fazer outra coisa ou a aproveitar melhor.
 
O descanso perde espaço quando está constantemente a ser avaliado.
 
Depois chegam os últimos dias. Ainda estás de férias, mas a mente já começou a regressar. Pensas nas tarefas que se acumularam, no horário que tens de recuperar e na dificuldade que será voltar à rotina.
 
O tempo que ainda tens começa a ser vivido como uma contagem decrescente. Em vez de permaneceres naquele dia, estás a antecipar o fim dele.
 
Quando finalmente regressas, podes sentir que estiveste algum tempo longe, mas quase nunca completamente desligado.
 

Duas semanas não mudam um ritmo de doze meses

Existe uma expectativa muito grande depositada nas férias. Trabalhamos durante meses, adiamos o descanso e acreditamos que algumas semanas serão suficientes para recuperar tudo aquilo que fomos acumulando.
 
Durante o resto do ano, o ritmo mantém-se. Existem tarefas, decisões, preocupações, pedidos e responsabilidades que se repetem todos os dias. Muitas vezes, até o fim de semana é usado para tratar daquilo que não coube nos dias anteriores.
 
Quando chega domingo à noite, continuas cansado. A cabeça já está na segunda-feira e uma parte do fim de semana foi passada a organizar a semana seguinte.
 
As férias tornam-se a versão maior desse mesmo intervalo. Esperas que uma pausa relativamente curta compense um quotidiano no qual quase nunca existe recuperação suficiente.
 
É natural que os primeiros dias de regresso consumam rapidamente parte da sensação de descanso. O ambiente que te sobrecarregava continua igual. As tarefas reaparecem, os limites mantêm-se e voltas a responder da mesma forma às exigências.
 
O problema pode não estar na duração das férias. Pode estar na quantidade de tempo que passas à espera delas para finalmente te permitires parar.
 

O descanso também se constrói durante o ano

Descansar não significa apenas não trabalhar. Há pessoas que param o corpo, mas continuam mentalmente a resolver, antecipar e rever tudo o que ficou pendente.
 
Também não significa viver sem responsabilidades ou criar uma rotina onde nada exige esforço. Significa reconhecer que nenhum corpo e nenhuma mente conseguem permanecer constantemente disponíveis sem algum espaço regular de recuperação.
 
Esse espaço pode começar em coisas pequenas: terminar um dia sem levar todas as tarefas mentalmente para a noite, deixar uma responsabilidade para o momento certo, criar períodos sem ecrãs ou reconhecer que nem tudo precisa de ser resolvido imediatamente.
 
Pode significar também perceber o que tens aceitado por hábito, onde estás a ultrapassar os teus limites e porque sentes tanta dificuldade em parar sem culpa.
 
Estas pausas não substituem férias. Fazem com que as férias deixem de ter a responsabilidade impossível de reparar um ano inteiro.
 

Quando o regresso revela mais do que as férias

A rapidez com que o cansaço regressa pode mostrar-te alguma coisa sobre a vida para a qual estás a voltar.
 
Podem existir demasiadas responsabilidades concentradas em ti. O teu trabalho pode ocupar mais espaço mental do que aquele que aparece no horário. Também podes passar grande parte do dia a responder às urgências dos outros e quase nenhum tempo a perceber o que precisas.
 
Pode também existir uma fase particularmente exigente que não consegues mudar de imediato. Ainda assim, compreendê-la permite-te deixar de interpretar o cansaço como uma falha pessoal ou como prova de que não soubeste aproveitar as férias.
 
É esta observação regular que trabalhamos na Sintonia. O objetivo é reconhecer, semana após semana, aquilo que estás a acumular, compreender os padrões que mantêm a sobrecarga e criar formas mais conscientes de responder ao que acontece.
 
Não se trata de acrescentar mais uma obrigação à rotina. Trata-se de impedir que só repares em como estás quando já chegaste ao limite e precisas que duas semanas resolvam aquilo que foi ignorado durante meses.
 
Um cansaço persistente ou intenso também pode ter causas físicas e merece ser avaliado por um profissional de saúde. Escutares o que estás a viver inclui não atribuíres automaticamente todos os sintomas ao ritmo emocional.
 
Talvez as férias tenham cumprido a sua função. Deram-te descanso, distância e alguns dias diferentes. O que elas não podem fazer sozinhas é transformar a vida para a qual regressas.
 
A pergunta deixa então de ser porque é que as férias não chegaram? e passa a ser outra: o que posso mudar ao longo do ano para não precisar que duas semanas me salvem?

Escrito por Carina Barbosa
Ajudo-te a encontrares-te novamente quando sentes que já não sabes quem és.
Há mais de 10 anos que acompanho pessoas que procuram compreender aquilo que estão a viver, reconhecer os padrões que influenciam as suas escolhas e construir uma vida mais verdadeira. Ao longo deste percurso, já acompanhei mais de 8000 pessoas.

O meu trabalho é ajudar-te a ver com mais clareza aquilo que ainda não consegues identificar e a escolher uma nova direção com maior consciência.