Vives sempre à espera da vida que ainda não tens
Podes precisar da casa nova, do carro ou de mais dias de descanso. Mas, quando o teu olhar vive preso ao que falta, torna-se difícil reconhecer aquilo que já é teu.
Sumário

Querer mais não significa falta de gratidão. Uma casa maior, mais dinheiro ou mais tempo podem melhorar verdadeiramente uma vida. A dificuldade aparece quando cada desejo traz consigo a promessa de que só depois dessa conquista vais conseguir sentir-te bem.

 
Quando o olhar se habitua a procurar aquilo que falta, cada conquista torna-se rapidamente o novo normal e a linha do “suficiente” avança novamente. A mudança não exige que deixes de querer. Pede que consigas construir o que desejas sem deixar de reconhecer e receber aquilo que já faz parte da tua vida. É esta relação com o receber que o Merecimento ajuda a aprofundar.


É de noite e estás a percorrer o telemóvel.
 
Aparece uma casa com uma cozinha maior do que a tua. Um carro novo. Uma viagem a um lugar onde nunca foste. Alguém que parece ter mais tempo, mais liberdade e uma vida muito mais leve.
 
Sem perceberes, começas a fazer uma lista. Quando tiver uma casa maior. Quando trocar de carro. Quando ganhar mais. Quando conseguir tirar alguns dias. Quando esta fase passar. Então vou respirar melhor. Então vou conseguir descansar. Então a vida começa a parecer-se mais comigo.
 
Enquanto pensas nisso, há uma noite a acontecer à tua volta. Estás dentro da casa que tens, talvez com alguém de quem gostas no quarto ao lado, depois de um dia em que o teu corpo voltou a levar-te até ao fim.
 
Nada disso desapareceu. Mas, durante aqueles minutos, ficou fora do teu olhar.
 
A vida que tens começa a parecer apenas a sala de espera da vida que ainda queres alcançar.
 

Querer mais não é o problema

Há coisas que podem mesmo fazer-te falta.
 
Uma casa maior pode dar espaço a uma família que cresceu. Um carro mais seguro pode trazer tranquilidade. Mais dinheiro pode permitir escolhas que hoje não consegues fazer. Dias de descanso podem ser necessários quando o ritmo deixou de ser sustentável.
 
Não vejo nenhum valor em fingir que essas coisas não importam.
 
É fácil dizer a alguém para valorizar o que tem quando não se conhece a vida dessa pessoa, as limitações que enfrenta ou tudo aquilo que tem adiado por falta de condições.
 
O desejo também pode trazer clareza. Mostra-te aquilo que queres construir, mudar ou viver de outra forma. A dificuldade aparece quando colocas dentro de cada conquista uma responsabilidade que ela não consegue cumprir: a de te fazer sentir, finalmente, que já tens o suficiente.
 
A casa pode melhorar a tua vida. O carro pode facilitar os teus dias. As férias podem dar-te descanso. Mas nenhuma dessas coisas consegue, sozinha, ensinar-te a reconhecer quando algo bom já chegou.
 

A linha que avança sempre mais um pouco

Já podes ter vivido isto antes. Houve uma altura em que desejavas muito alguma coisa que hoje faz parte da tua rotina. Pensavas nela, fazias contas e imaginavas como seria quando finalmente a tivesses.
 
Depois chegou.
 
Durante algum tempo, reparaste em cada detalhe. Sentiste entusiasmo, orgulho ou alívio. Aos poucos, aquilo deixou de ser novidade e passou a fazer parte do cenário habitual da tua vida.
 
Não deixou de ter valor. Deixaste apenas de reparar tanto. Entretanto, surgiu outra coisa que ainda não tens. E a sensação de que falta alguma coisa voltou a instalar-se, agora noutro lugar.
 
É assim que o “suficiente” pode permanecer sempre no futuro. Não porque nunca conquistes nada, mas porque a atenção se desloca rapidamente para a próxima ausência.
 
Chegas ao lugar onde querias estar e, antes de conseguires habitá-lo, já estás a olhar para mais adiante. Não é a conquista que falhou. O que continuou igual foi o lugar de onde olhas para aquilo que tens.
 

Aquilo que está presente deixa de fazer barulho

Há coisas que só reconhecemos verdadeiramente quando mudam ou desaparecem.
 
A saúde, enquanto o corpo responde. Uma relação, enquanto a pessoa continua por perto. A casa, enquanto nos protege todos os dias. Uma rotina que pode parecer aborrecida até ao momento em que alguma coisa a interrompe.
 
O que está sempre presente tende a tornar-se silencioso.
 
Não porque sejas uma pessoa ingrata. A atenção humana repara mais facilmente na novidade, na ausência e naquilo que ainda está por resolver. O que já existe mistura-se com o fundo da vida.
 
A casa onde vives pode ter sido, noutra fase, exatamente aquilo que desejavas. A relação que hoje sentes como garantida pode ter começado com o medo de não resultar. Também podem existir pequenas liberdades que construíste ao longo dos anos e que já não reconheces como conquistas.
 
Nada disto significa que tens de ficar onde estás ou convencer-te de que tudo é suficiente.
 
Significa apenas que podes querer mudar uma parte da tua vida sem transformar tudo o que já existe numa coisa sem valor.
 

A vida que adias enquanto estás a construí-la

O “quando” pode tornar-se uma forma muito discreta de adiamento.
 
Quando esta fase terminar, vais cuidar mais de ti. Quando houver mais dinheiro, vais aproveitar melhor a vida. Quando tiveres mais tempo, vais estar mais presente com as pessoas de quem gostas.
 
Algumas dessas mudanças dependem realmente de condições que ainda não existem. Outras continuam a ser adiadas mesmo quando as condições mudam.
 
Porque, quando chega mais tempo, aparece uma nova tarefa. Quando entra mais dinheiro, surge outra meta. Quando resolves um problema, começas imediatamente a preparar-te para o seguinte.
 
A vida mantém-se no futuro, não por estar sempre inacessível, mas porque te habituaste a acreditar que ainda não chegou o momento de a viveres como gostarias.
 
É possível que estejas há anos a construir uma vida melhor e, no meio desse esforço, tenhas deixado de perceber que também precisas de estar presente enquanto a constróis.
 
Não apenas quando estiver concluída.
 

Ver o que tens não te obriga a desistir do que queres

Reconhecer aquilo que já existe não significa conformares-te.
 
Podes olhar para a tua casa com carinho e continuar a desejar uma maior. Podes valorizar o trabalho que tens e perceber que já não te representa. Podes sentir gratidão por uma fase e, ainda assim, saber que chegou o momento de mudar.
 
Uma coisa não anula a outra.
 
Há quem aprenda a usar a insatisfação como combustível. Se estiveres sempre focado no que falta, continuas a avançar. Se reconheceres o que já tens, receias perder a vontade de crescer.
 
Mas há mudanças que nascem do medo de ficar para trás e outras que nascem de uma compreensão mais verdadeira daquilo que faz sentido para ti. As duas podem levar-te a agir. Só não te fazem viver o caminho da mesma forma.
 
Quando partes sempre da falta, nenhuma conquista consegue trazer descanso durante muito tempo. Quando partes da consciência, podes continuar a construir sem sentires que a tua vida atual precisa de ser rejeitada para a próxima poder existir.
 

Receber também é reparar

Há uma parte do receber que quase nunca relacionamos com aquilo que já temos.
 
Pensamos em receber como alguma coisa que chega: uma oportunidade, dinheiro, cuidado ou reconhecimento. Mas também recebemos quando conseguimos reconhecer o valor daquilo que já entrou na nossa vida.
 
Quando alguém te dá algo bom e tu desvalorizas, passas rapidamente para a próxima coisa ou sentes que ainda não chega, aquilo pode estar contigo sem chegar verdadeiramente até ti.
 
É esta relação que o Merecimento ajuda a observar: a dificuldade em receber sem diminuir, compensar ou procurar imediatamente aquilo que ainda falta. Não para deixares de desejar mais, mas para não viveres permanentemente indisponível para aquilo que já existe.
 
Não precisas, necessariamente, de fazer uma lista de gratidão nem de te obrigar a sentir-te satisfeito.
 
Podes começar de forma mais simples. Olhar para a divisão onde estás. Para as pessoas que fazem parte da tua vida. Para alguma coisa que hoje consideras normal, mas que exigiu tempo, escolhas ou coragem para ser construída.
 
E perguntar: o que existe hoje na minha vida que eu já deixei de ver?
 
A casa nova pode chegar. O carro pode mudar. É possível que um dia tenhas mais descanso e vivas experiências que hoje ainda não são possíveis.
 
Mas a vida não começa nesse dia. Ela já está a acontecer enquanto procuras a forma de a tornar melhor. E crescer também pode passar por aprender a não viver sempre de olhos postos no lugar seguinte.

Escrito por Carina Barbosa
Ajudo-te a encontrares-te novamente quando sentes que já não sabes quem és.
Há mais de 10 anos que acompanho pessoas que procuram compreender aquilo que estão a viver, reconhecer os padrões que influenciam as suas escolhas e construir uma vida mais verdadeira. Ao longo deste percurso, já acompanhei mais de 8000 pessoas.

O meu trabalho é ajudar-te a ver com mais clareza aquilo que ainda não consegues identificar e a escolher uma nova direção com maior consciência.