Vives sempre à espera da vida que ainda não tens
Podes precisar da casa nova, do carro, de mais dias de descanso. Mas se o teu olhar foca-se no que te falta, nunca chegas a ver aquilo que já é teu
Sumário

Achares que precisas de mais: casa nova, carro, férias, descanso. Não é ganância, e essas coisas podem mesmo somar à tua vida. O problema não é o desejo: é o foco. Quando os teus olhos vivem naquilo que falta, o que já tens torna-se invisível, e cada conquista só empurra a linha do "suficiente" mais para a frente.

 
Assim, persegues uma vida que está sempre no futuro e nunca habitas a que tens agora. A mudança não é deixares de querer, mas sim saíres da escassez para veres e receberes aquilo que, sem reparares, já era teu.


É de noite e estás a deslizar no telemóvel. Casas que não são a tua, com cozinhas maiores. Carros. Aquele destino de férias onde ainda não foste. E, sem dares por isso, começa a lista: quando tiver a casa maior, quando trocar de carro, quando puder tirar mais uns dias, quando ganhar mais um bocado... então. Então vai ser bom. Então vais poder, finalmente, descansar, respirar, ser feliz.
 
E enquanto fazes essa lista, à tua volta acontece uma coisa em que nem reparas: a noite que estás a viver — a casa onde estás, a cama onde estás em repouso, as pessoas que dormem no quarto ao lado, o corpo que te aguentou o dia inteiro — passa toda ela ao lado, invisível, como o ruído de fundo de uma vida que andas demasiado ocupado a adiar para dares conta de que ela já está a acontecer.
 
E que isto fique claro, porque é importante: não há nada de errado em quereres mais. Podes mesmo precisar da casa maior, do carro que não te deixa a pé, dos dias de descanso que pedes há meses. Essas coisas contam, acrescentam, completam. O desejo não é o problema. O problema é outro: é para onde estás sempre a olhar.
 

A linha do "suficiente" anda sempre que tu andas

Repara num padrão que talvez nunca tenhas visto de fora. Cada vez que desejas alguma coisa, dizes a ti que é aquilo que te falta para estares finalmente bem. E, às vezes, consegues. Compras, mudas, alcanças. E, por uns dias, sabe mesmo bem.
 
Mas depois acontece sempre o mesmo: a sensação de falta não desaparece. Só muda de sítio. O carro novo torna-se, em poucas semanas, apenas o carro. A casa por que tanto esperaste passa a ser o normal, e o olho já foge para a próxima, que é ainda melhor. A linha do "quando eu tiver, então" não fica quieta à tua espera — anda para a frente exatamente à mesma velocidade a que tu andas. Chegas onde querias, e o "suficiente" já se mudou, outra vez, para mais adiante.
 
É por isto que a conquista nunca te enche como prometia. Não porque não valha nada, mas porque o vazio que ela ia preencher nunca esteve na casa, no carro ou nos dias de férias. Estava no teu olhar, que aprendeu a viver na falta. Não é o que tens que é pouco. É para onde olhas que nunca chega.
 

O que é teu tornou-se invisível

Há uma ironia na forma como a tua atenção funciona: aquilo que está sempre presente, deixas de o ver. É como o tique-taque de um relógio numa sala — ao fim de uns minutos, o cérebro apaga-o.
 
Foi isto que aconteceu a quase tudo o que tens. A casa que um dia sonhaste ter e onde hoje vives sem reparar. A pessoa a teu lado, que já foi o teu maior desejo e que agora faz parte da mobília dos teus dias. A saúde, que só notas quando falha. O teto, o prato na mesa, as pequenas coisas que, se um dia te faltassem, davas tudo para ter de volta — e que, tendo-as, mal olhas para elas.
 
Não é que sejas ingrato. É que o que te falta faz barulho, e o que tens ficou em silêncio. E tu passas a vida encostado à montra daquilo que não tens, de costas para a sala onde estás — uma sala que está muito mais cheia do que alguma vez conseguirás ver enquanto lhe deres as costas.
 

A falta nunca esteve nas coisas

E aqui está o que muda tudo — não uma frase bonita, mas uma constatação simples. Se aquilo que te falta fosse mesmo a causa da tua inquietação, então cada coisa que conquistaste ao longo da vida devia ter-te deixado um pouco mais em paz. E, se olhares para trás com honestidade, sabes que não foi bem assim: já tiveste coisas que hoje nem valorizas, e continuaste igualmente esfomeado por mais.
 
Isso diz-te uma coisa importante. O problema nunca foi a quantidade daquilo que tens. Foi a direção do teu olhar. E a direção do olhar, ao contrário da casa e do carro, não se compra — treina-se. Não se trata de deixares de querer, nem de te obrigares a estar grato à força, que isso seria só mais uma tarefa para a lista. Trata-se de, de vez em quando, tirares os olhos da falta o tempo suficiente para veres o que está mesmo à tua frente. Podes continuar a caminhar para a casa maior, se ela te faz falta — mas parando, uma vez por outra, para reparar que a casa onde já estás tem uma luz que entra de manhã e que há anos não vês.
 
E se esse treino do olhar te parece difícil de fazer sozinho, é porque não é só um hábito de atenção — é uma postura interior. Enquanto uma parte de ti acreditar, lá no fundo, que não há suficiente, que o bom é escasso e que tens sempre de correr atrás de mais para um dia mereceres estar em paz, o teu olhar vai continuar preso na falta, por mais coisas que juntes. É exatamente essa raiz que o Merecimento trabalha: desmontar a ilusão da escassez e devolver-te a postura de quem se sente disponível para receber, e ficar com, o que a vida já tem para dar — em vez de viver de porta fechada, convencido de que aquilo que tem nunca é o bastante.
 
Porque a vida não te espera no fim da lista. Não começa quando tiveres a casa, o carro, os dias todos de descanso que mereces. Ela está a acontecer agora, nesta noite comum que estás a passar a planear outra — nesta casa, com estas pessoas, neste corpo, com estas pequenas coisas que, um dia, foram tudo aquilo que pedias.

Escrito por Carina Barbosa
Mentora de Identidade e Direção
Dediquei os últimos 10 anos a analisar os padrões que causam a exaustão e o bloqueio. Com mais de 8000 pessoas acompanhadas, o meu foco é ajudar-te a sair do piloto automático e recuperar a tua direção. Através do meu trabalho, ajudo-te a transformar o ruído interno numa clareza objetiva e aplicável ao teu dia a dia.