Acontece-te algo bom, e já estás à espera que corra mal
Porque desconfias daquilo que te corre bem. E como viver à espera do fim te impede de receber verdadeiramente o que já chegou
Sumário

Quando alguma coisa boa acontece, podes sentir dificuldade em confiar nela. Em vez de receberes, ficas atento aos sinais de que pode acabar, mudar ou ser retirado. A preocupação parece uma forma de preparação, mas acaba por ocupar o lugar da alegria e manter-te emocionalmente à distância.

 
Por vezes, essa vigilância também influencia a forma como te relacionas com aquilo que recebeste: desvalorizas, procuras defeitos ou afastas-te antes de poderes ser deixado. A mudança começa quando percebes que algo não precisa de ser garantido para ser vivido. É esta permissão para receber sem culpa, dívida ou antecipação constante da perda que o Merecimento ajuda a aprofundar.


Aconteceu-te alguma coisa boa.
 
Recebeste a resposta que esperavas. Um projeto correu bem. Alguém escolheu ficar. Entrou um dinheiro com que não estavas a contar. Um exame trouxe uma notícia tranquila.
 
Durante alguns segundos, sentes alegria. Depois aparece outra coisa. Espera. Isto está a correr bem demais. O que é que vai acontecer agora?
 
A notícia ainda é a mesma, mas tu já não estás completamente dentro dela. Começas a procurar aquilo que ainda não viste, o detalhe que pode estragar tudo, a razão pela qual não deves confiar demasiado.
 
Em vez de receberes o momento, ficas a observá-lo à distância. Como quem entra numa casa bonita, mas não desfaz as malas porque acredita que, a qualquer instante, lhe vão pedir para sair.
 
É possível que faças isto numa relação que está tranquila. Em vez de aproveitares a proximidade, tentas perceber quando a outra pessoa vai mudar. Num projeto que começou a resultar, procuras sinais de que o sucesso foi apenas sorte. Até uma semana calma pode causar desconforto, como se a ausência de problemas fosse apenas uma pausa antes de alguma coisa pior.
 
Aquilo que é bom chega. Tu permaneces de guarda.
 

Quando a tranquilidade também te deixa em alerta

Há pessoas que se sentem mais preparadas para lidar com problemas do que para viver períodos de tranquilidade.
 
Sabem o que fazer quando alguma coisa falha. Organizam-se, resolvem, antecipam e encontram uma forma de continuar. O terreno é difícil, mas é conhecido.
 
Quando tudo está bem, já não existe a mesma tarefa. Não há nada para corrigir nem nenhuma urgência a ocupar a atenção. E esse espaço, que poderia ser vivido como descanso, pode começar a parecer estranho.
 
É possível que, através da tua própria experiência, tenhas aprendido que as coisas mudam depressa. Uma fase boa foi interrompida. Uma pessoa em quem confiavas desiludiu-te. Alguma coisa que parecia segura deixou de o ser.
 
A partir daí, estar atento pode ter-te parecido uma forma de proteção.
 
Se antecipares o problema, sentes que não serás apanhado de surpresa. Se não te entusiasmares demasiado, acreditas que a queda pode doer menos. Se mantiveres uma parte de ti preparada para sair, sentes-te menos vulnerável caso aquilo termine.
 
Há uma lógica neste comportamento. O problema está no preço que pagas por ele.
 
A preocupação não impede que alguma coisa mude. Apenas faz com que comeces a perder o momento antes de existir uma perda real.
 

Preparas-te para sofrer e deixas de receber

Quando imaginas antecipadamente tudo o que pode correr mal, sentes que estás a preparar-te.
 
Na realidade, começas a viver emocionalmente uma situação que ainda não aconteceu.
 
A relação está bem, mas tu já estás a imaginar o afastamento. O projeto está a crescer, mas já te preparas para o fracasso. Recebeste uma boa notícia, mas procuras imediatamente aquilo que a pode anular.
 
Enquanto fazes isso, o que está realmente a acontecer recebe apenas uma parte de ti.
 
Não te entregas completamente à alegria porque tens medo de confiar. Não celebras demasiado porque não queres parecer ingénuo. Não te permites descansar porque acreditas que baixar a guarda pode trazer algum perigo.
 
Às vezes, dizes que és apenas realista. Que sabes que tudo pode acabar e que preferes não criar expectativas.
 
É verdade que tudo pode mudar. Nenhuma relação, trabalho ou fase da vida vem acompanhada de uma garantia. Mas reconhecer essa realidade é diferente de viver cada momento bom como se o fim já tivesse começado.
 
Uma coisa pode não durar para sempre e continuar a merecer ser vivida por inteiro enquanto existe.
 

Quando procuras o fim antes de ele chegar

Há momentos em que a espera se torna tão desconfortável que começas, sem perceber, a aproximar-te daquilo que receias.
 
Numa relação, podes procurar constantemente sinais de desinteresse. Interpretas um silêncio, testas a outra pessoa ou crias uma discussão para confirmar se ela continua presente.
 
Num projeto, desvalorizas o que alcançaste e deixas de investir com confiança, porque acreditas que o resultado positivo não se vai repetir.
 
Também podes encontrar rapidamente defeitos naquilo que desejaste durante muito tempo. Quando finalmente chega, já não parece tão bom. Há sempre qualquer coisa que falta, alguma razão para não te comprometeres ou uma explicação para o facto de aquilo não poder resultar.
 
Nem sempre estás conscientemente a estragar o que tens. Muitas vezes, estás apenas a tentar recuperar uma sensação de controlo.
 
Esperar por uma perda deixa-te vulnerável. Antecipá-la, afastando-te ou encontrando o problema primeiro, dá-te a impressão de que foste tu que decidiste.
 
Só que esta proteção também te impede de descobrir o que poderia acontecer se ficasses.
 
Mas talvez a verdadeira questão seja: porque me custa tanto permanecer quando alguma coisa está a correr bem?
 

O bom não precisa de ser pago antecipadamente

Por baixo desta vigilância pode existir uma ideia difícil de reconhecer: a de que as coisas boas não chegam simplesmente.
 
Têm de ser conquistadas, compensadas ou seguidas por algum sacrifício. Se algo aparece com facilidade, desconfias. Se uma pessoa te escolhe sem te exigir que proves constantemente o teu valor, perguntas o que estará a escapar-te.
 
Habituaste-te a dar muito antes de receber. A esforçar-te, cuidar, resolver e mostrar que mereces estar ali.
 
Quando alguma coisa boa chega sem essa negociação, não sabes onde colocá-la. Parece provisória. Como se a vida tivesse cometido um erro e pudesse corrigi-lo a qualquer momento.
 
É esta relação com o receber que trabalhamos no Merecimento. Não para te convencer de que tudo o que é bom vai durar, nem para prometer que nunca voltarás a perder alguma coisa importante. O trabalho está em perceber porque receber pode provocar culpa, desconfiança ou a necessidade de te preparares imediatamente para pagar.
 
Receber implica aceitar que alguma coisa pode ser boa sem teres de a diminuir. Que podes viver uma fase feliz sem procurares uma ameaça escondida. Que não precisas de sofrer antecipadamente para demonstrares que compreendes como a vida funciona.
 

Ficar não significa acreditar que será para sempre

Nunca consegues ter a certeza de que aquilo que tens vai continuar exatamente igual.
 
As relações mudam. Os projetos atravessam fases. Há notícias boas que trazem outras preocupações mais tarde. Faz parte de viver.
 
Mas estar presente não exige uma garantia.
 
Podes gostar daquilo que tens hoje sem prometer que será eterno. Podes confiar numa pessoa sem deixar de reconhecer que ambos são livres. Podes celebrar uma conquista sem saber exatamente o que acontecerá a seguir.
 
A consciência não elimina a incerteza. Ajuda-te a perceber quando estás a entregar o presente a um futuro que ainda não existe.
 
Da próxima vez que alguma coisa boa acontecer e o primeiro pensamento for procurar aquilo que pode correr mal, não precisas de discutir com ele.
 
Podes apenas reparar: estou novamente a tentar proteger-me antes de existir alguma coisa de que precise de me proteger.
 
E depois ficar mais um pouco.
 
Sem transformares a alegria numa promessa. Sem exigires que o momento prove que vai durar. Sem começares a despedir-te de uma coisa que ainda está diante de ti.
 
Aquilo que é bom pode terminar um dia. Pode mudar. Ou pode permanecer de uma forma que agora ainda não consegues imaginar.
 
Mas, enquanto está aqui, a pergunta é outra: consegues recebê-lo ou já começaste a perdê-lo dentro de ti?

Escrito por Carina Barbosa
Ajudo-te a encontrares-te novamente quando sentes que já não sabes quem és.
Há mais de 10 anos que acompanho pessoas que procuram compreender aquilo que estão a viver, reconhecer os padrões que influenciam as suas escolhas e construir uma vida mais verdadeira. Ao longo deste percurso, já acompanhei mais de 8000 pessoas.

O meu trabalho é ajudar-te a ver com mais clareza aquilo que ainda não consegues identificar e a escolher uma nova direção com maior consciência.