Porque desconfias de tudo o que te corre bem, e como viveres à espera do fim te impede de ficares, de verdade, com aquilo que é teu
Desconfiares sempre que algo bom te acontece não é realismo nem azar: é o medo da felicidade. Aprendeste que o bom é emprestado e que a cobrança vem sempre a seguir, por isso, em vez de receberes, ficas de guarda — à espera do pior, e por vezes até o provocas, só para acabar com a espera.
Nesse alerta constante, nunca chegas a ficar com aquilo que é teu. A verdade é que o bom não é um empréstimo que a vida te vai cobrar.
Aconteceu-te alguma coisa boa. O sim que esperavas, um trabalho, um encontro que correu bem, uns exames que vieram limpos, um dinheiro que entrou, alguém que te escolheu. E a primeira coisa que sentes não é alegria. É um aperto.
Uma voz, quase imediata, sussurra-te:
espera. Isto é bom demais. O que é que vai correr mal? E, sem dares por isso, já andas à procura da armadilha, já estás de sobreaviso, já começaste a preparar-te para a desilusão que tens a certeza de que vem a caminho. Passas o momento bom não a vivê-lo, mas em estado de alerta, à espera do instante em que to venham tirar.
E é sempre assim. É a relação que está a correr bem, e tu à espera que desabe. É o projeto que resultou, e tu convencido de que não vai durar. É a semana calma que, em vez de te dar paz, te deixa nervoso — porque uma semana boa de mais só pode querer dizer que aí vem uma má. Até as boas notícias te fazem o estômago cair, porque, na tua experiência, uma boa notícia costuma ser só o princípio de uma má.
Isto não é pessimismo, nem é seres "realista". E não, não é o mundo que te trata pior do que aos outros. É um padrão antigo, aprendido há muito tempo, que transformou a felicidade numa ameaça — e que te obriga a viver tudo o que é bom num estado de incerteza.
O alarme que dispara quando devia ser paz
Repara no que o teu corpo faz quando a vida corre bem. Não relaxa. Aperta. Onde devia haver alívio, sobe o alerta. Porque, algures pelo caminho, aprendeste uma regra silenciosa: o bom é temporário, e depois vem sempre algo a cobrar.
Então preparas-te. Antecipas a perda, imaginas o pior, ensaias a desilusão — como se sofreres um bocadinho já, por dentro, amaciasse o pior quando ele chegasse. Chamas a isto proteger-te. A única coisa que a preocupação faz é obrigar-te a pagar duas vezes: uma agora, na angústia, e outra depois, se a perda vier mesmo. E, enquanto pagas adiantado, o que é bom está a acontecer — e tu não estás lá.
Passas o momento bom a preparar-te para o mau. E o mau, venha ou não venha, já te tirou o bom.
E há um preço ainda mais silencioso. Para te magoares menos quando aquilo acabar, começas a segurar-te. Investes só até certo ponto, amas com um limite ou distanciamento, não te entregas por inteiro — porque, se não te entregares, dói menos perder. E, ao guardares-te para não sofreres, tornas-te tu, sem querer, na causa exata daquilo que temias: o bom acaba por enfraquecer, porque nunca o deixaste chegar de verdade até ti.
Às vezes és tu a acabar com a espera
E há uma parte disto ainda mais difícil de admitir. Porque a tensão de esperar que corra mal chega a ser tão insuportável que, sem dares conta, acabas por apressar tu o fim.
Arranjas o motivo para a discussão. Encontras o defeito na coisa boa. Crias o problema, gastas o que não devias, afastas a pessoa — para que, ao menos, o desastre aconteça nos teus termos, e a espera acabe. Porque no meio do sobressalto e da luta tu sabes quem és — é território conhecido. É na calma, no bom que dura, que te sentes sem rumo e sem chão. E, para voltares àquilo que te é familiar, deitas a perder justamente aquilo que tanto querias.
Reparaste no truque que a tua mente te prega? Ao seres tu a estragar, ficas com a ilusão de que ainda tens o controlo — antes que a vida to tire, tiras primeiro. Só que o que fazes, na verdade, é apressar a perda que tanto temias, e roubares-te a ti próprio tudo o que ainda havia para viver até ela chegar — se é que alguma vez chegaria.
O bom não é um empréstimo que a vida te vai cobrar
Debaixo de tudo isto está uma convicção que nunca disseste em voz alta: a de que aquilo de bom que te acontece não é verdadeiramente teu. Foi sorte, foi um acaso, foi um engano que, mais cedo ou mais tarde, vai ser corrigido. E o que é emprestado, podem sempre vir buscar.
É esta a crença que o
Merecimento desmonta, na mente e no corpo. Porque aprendeste a achar que só tens direito ao bom depois de o pagares com sofrimento, por isso, qualquer coisa boa que chega sem custo, parece perigosa, provisória, boa de mais para ser verdade. O Merecimento devolve-te aquilo que essa contabilidade antiga nunca deixou entrar: que o bom que tens não é um empréstimo à espera de ser cobrado, nem uma sorte que o destino te vai reclamar. É teu. Podes recebê-lo por inteiro, e podes ficar com ele, sem culpa e sem dívida. E dás esse passo no dia em que decidires que já chega de viver à espera do pior.
Fica com isto, porque é a parte mais simples e a mais difícil de acreditar: a tua preocupação nunca impediu uma única perda. A única coisa que ela sempre te tirou foi a alegria que era tua.