Tornaste-te responsável pelo humor de toda a gente à tua volta. E como isso te rouba, sem dares por isso, o direito às tuas próprias emoções
Sentires-te responsável pelo humor de toda a gente não é excesso de empatia. É uma antena permanentemente focada no exterior, que lê, absorve e assume as emoções dos outros como se fossem tuas. Levas para casa sentimentos que nem sequer são teus e, sem espaço para os teus, quando te perguntam como estás, olhas para fora em vez de olhares para dentro.
E essas emoções absorvidas não desaparecem: acumulam-se, porque nunca foram tuas para resolver. A saída é processar esse impacto emocional com regularidade, em vez de o guardares no corpo.
A porta abre-se. Alguém que vive contigo chegou a casa. E, ainda antes de ouvires uma palavra, já sabes. Sabes pela forma como a porta se fechou, pelo peso dos passos no corredor, pelo silêncio que entrou com a pessoa. Alguma coisa está errada.
E, no mesmo segundo, o teu estômago aperta. Mas repara na pergunta que dispara, automática, à frente de todas as outras:
foi alguma coisa que eu fiz? Não sabes o que se passou. Pode não ter nada a ver contigo — o trânsito, o trabalho, um dia mau qualquer. Mas o teu corpo já assumiu o comando: a noite que ias ter deixou de ser tua. Vais passá-la a medir as palavras, a tentar elevar um humor que talvez nem sequer seja sobre ti.
E não é só em casa. É na reunião em que alguém está mais fechado, e tu passas a hora a tentar perceber se é contigo. É no jantar de amigos onde chegas e, em três segundos, já leste a temperatura emocional de toda a mesa — e quem estiver em baixo torna-se, sem ninguém pedir, o teu projeto da noite. Onde quer que estejas, há uma parte de ti que nunca descansa: está de serviço, a vigiar o estado de espírito dos outros.
Se te reconheces nisto, não é fraqueza, nem é seres "demasiado sensível". É uma das formas de cuidado mais bonitas — e mais silenciosamente destrutivas — que existem. Porque há uma diferença enorme entre reparares que alguém está mal e passares a carregá-lo tu.
A antena que nunca se desliga
Tu vives com uma antena permanentemente apontada para fora. Lês micro-sinais que a maioria das pessoas nem regista — uma inflexão de voz, um ombro mais caído, uma resposta seca de mais, um silêncio fora do sítio. E, no instante em que os captas, acontecem duas coisas ao mesmo tempo, tão coladas uma à outra que já nem as separas.
Primeiro, sentes a emoção do outro dentro do teu próprio corpo, como se o clima dele passasse a ser o teu. Depois, assumes que és responsável por ela — que a causaste, ou que, no mínimo, é a ti que compete arranjá-la. E é por isso que sais de cada sala mais pesado do que entraste: trazes contigo sentimentos que, à partida, nunca foram teus.
Não estás só a ver a emoção do outro. Estás a vesti-la.
Imagina uma esponja. Passa a vida a absorver a água à sua volta, sem escolher, até ficar encharcada e pesada. Tu fazes isto o dia inteiro, com as emoções de toda a gente. E chegas a casa cheio de humores que apanhaste pelo caminho, sem saber como os largar — porque ninguém nunca te disse que não eram teus para carregar.
Sentes tudo, menos o que é teu
E aqui está o preço mais alto, aquele que quase nunca vês. Com a antena sempre virada para fora, ela nunca se vira para ti. Estás tão ocupado a sentir toda a gente que não sobra espaço nenhum para te sentires a ti.
Repara no que te acontece quando alguém te pergunta, a sério:
e tu, como é que estás? Hesitas. Olhas para o lado, pensas, e muitas vezes a resposta honesta seria "não sei". Sabes dizer ao pormenor como está cada pessoa da mesa, mas sobre ti ficas em branco. Tornaste-te fluente nas emoções dos outros e mudo nas tuas. Sentes tudo — menos aquilo que é teu.
E há ainda a parte que se acumula. As emoções que absorves não se dissolvem, porque nunca tiveram resolução: não eram tuas para resolver. Por isso ficam. Vão-se empilhando, dia após dia, ano após ano, uma vida inteira de humores alheios guardada dentro do teu corpo. Grande parte do peso que carregas ao fim do dia não vem sequer da tua vida — vem de tudo o que apanhaste da vida dos outros e nunca puseste no chão.
É precisamente aqui que entra a
Sintonia. Não é só um lugar onde largas o peso da semana. É onde, a pouco e pouco, te vais reencontrando por baixo dele. Porque de tanto sentires os outros, perdeste-te de vista, e é esse o verdadeiro trabalho: semana após semana, processar o que absorveste, separar o que é teu daquilo que só passou por ti, e voltar a reconhecer as tuas próprias emoções — até reconstruíres a pessoa que ficou debaixo dos humores de toda a gente.
Não se trata de gerires melhor o estado de espírito dos outros. Trata-se de recuperares o teu próprio centro, a tua identidade, o direito de sentires aquilo que é teu. Podes dar esse passo quando decidires que já chega de te perderes para caberes em toda a gente.
O céu deles nunca foi teu para segurar
Dizes a ti que fazes isto por amor, por cuidado. E há disso, sem dúvida. Mas olha mais fundo, porque há mais. Assumir o humor de toda a gente é também uma forma de te sentires seguro —
se eu conseguir manter todos bem, então nada de mau me vai acontecer — e, mais difícil de admitir, é uma forma discreta de controlo. E rouba duas vezes: rouba ao outro a dignidade de viver o seu próprio estado, como se ele não pudesse estar mal sem tu correres a resolvê-lo. E rouba-te a ti o direito de teres, e sentires, as tuas próprias emoções.
Por isso a pergunta que muda tudo não é
o que é que eu fiz para ele ficar assim?. São duas, e são mais incómodas:
de quem é este sentimento que ando a carregar — é meu, ou só passou por mim? E a mais dura de todas:
se toda a gente à minha volta estivesse bem, será que eu saberia dizer como é que eu estou?
Porque a verdade simples, e libertadora, é esta: tu tens o direito de deixar alguém estar de mau humor sem que isso seja culpa tua nem tarefa tua. O tempo que faz dentro de cada pessoa pertence-lhe. E tu, por mais que te doa vê-lo carregado, nunca foste feito para ser o céu de toda a gente.
O mau humor dos outros não é um recado sobre ti.