Tornaste-te responsável pelo humor de toda a gente à tua volta. E isso vai-te afastando, sem perceberes, das tuas próprias emoções.
Estares constantemente atento ao humor das outras pessoas pode parecer empatia, mas também pode revelar um estado de vigilância permanente. Reparas em cada silêncio, mudança de voz ou expressão e assumes rapidamente que fizeste alguma coisa ou que tens de melhorar o ambiente.
Com o tempo, torna-se difícil separar aquilo que realmente sentes da reação que tiveste ao estado emocional de alguém. A mudança começa quando reconheces que podes cuidar sem assumir responsabilidade por tudo o que acontece à tua volta. A
ajuda-te a observar estas dinâmicas com regularidade e a recuperar espaço para reconhecer as tuas próprias emoções.
A porta abre-se. Alguém que vive contigo chegou a casa e, ainda antes de ouvires uma palavra, já reparaste que alguma coisa está diferente.
Foi a forma como a porta se fechou, o peso dos passos ou o silêncio com que a pessoa entrou. Não sabes o que aconteceu, mas o teu corpo fica imediatamente mais atento.
A primeira pergunta surge quase sem perceberes:
será que fiz alguma coisa?
Pode ter sido um dia difícil no trabalho, uma preocupação pessoal ou apenas cansaço. Ainda assim, começas a medir as palavras, a observar cada reação e a procurar uma forma de melhorar o ambiente.
A noite que imaginavas ter muda nesse instante. Uma parte da tua atenção deixa de estar contigo e passa a acompanhar o estado emocional da outra pessoa.
Este movimento também aparece fora de casa. Numa reunião, alguém responde de forma mais seca e passas o resto do tempo a tentar perceber se foi contigo. Num jantar, reparas rapidamente em quem está mais distante e sentes vontade de animar, aproximar ou descobrir o que se passa.
É uma atenção muito apurada aos outros. O problema começa quando essa atenção nunca regressa completamente a ti.
Estás sempre a ler o ambiente
Há pessoas que percebem rapidamente as mudanças de humor à sua volta. Reparam numa pausa diferente, numa expressão mais fechada ou numa resposta que parece menos disponível.
Esta capacidade pode tornar-te atento, cuidadoso e presente nas relações. Permite perceber quando alguém precisa de espaço ou de apoio, mesmo sem o dizer diretamente.
A dificuldade está no que acontece a seguir.
Em vez de apenas reconheceres que a outra pessoa está diferente, começas a procurar uma explicação dentro de ti. Perguntas o que fizeste, o que disseste ou o que poderias fazer para corrigir a situação.
A emoção do outro transforma-se rapidamente numa responsabilidade tua.
Podes mudar o teu comportamento para evitar piorar o ambiente. Tornas-te mais disponível, falas com mais cuidado ou deixas para depois aquilo que precisavas de dizer. Em alguns momentos, podes até alterar o teu próprio estado para acompanhar aquilo que encontras na sala.
Se alguém está triste, deixas de te permitir estar bem. Se alguém está irritado, ficas em alerta. Se alguém está distante, sentes necessidade de recuperar a proximidade.
O humor dos outros começa assim a determinar a forma como podes estar.
Porque o estado dos outros parece dizer alguma coisa sobre ti
Nem sempre assumimos responsabilidade pelas emoções dos outros apenas por empatia. Por vezes, aprendemos a observar o ambiente porque isso nos ajudava a sentir segurança.
Pode ter sido importante perceber rapidamente quando alguém estava cansado, irritado ou menos disponível. Antecipar o estado dessa pessoa permitia-te adaptar o comportamento e evitar uma reação difícil.
Com o tempo, esta atenção pode transformar-se num hábito. Entras numa sala e, antes de perceberes como estás, tentas compreender como está toda a gente.
Se o ambiente está tranquilo, relaxas. Se alguém parece incomodado, começas a procurar o que precisa de ser resolvido.
O problema é que nem todos os silêncios são sobre ti. Nem todas as mudanças de humor resultam de alguma coisa que fizeste. As pessoas chegam às relações com preocupações, memórias, cansaço e conflitos internos que não consegues conhecer apenas pela forma como entraram numa divisão.
Quando interpretas cada alteração como um possível recado sobre ti, passas muito tempo a responder a perguntas que ninguém te fez.
Quando já não sabes distinguir o que é teu
Existe um custo menos visível em estares permanentemente atento ao que os outros sentem.
A tua atenção fica tão treinada para procurar sinais no exterior que pode tornar-se difícil reconhecer aquilo que acontece dentro de ti.
Quando alguém pergunta como estás, hesitas. Consegues explicar como está a tua família, aquilo que preocupa uma amizade ou o ambiente no trabalho. Quando a pergunta é sobre ti, a resposta parece menos clara.
Podes dizer que estás cansado, porque o cansaço é mais fácil de identificar. Mas nem sempre sabes se estás triste, frustrado, desiludido ou apenas sobrecarregado por teres passado o dia a adaptar-te ao estado emocional das outras pessoas.
As emoções não precisam de pertencer aos outros para terem impacto em ti. Estar perto de alguém irritado, triste ou ansioso pode alterar a forma como te sentes. Isso faz parte das relações.
A diferença está em conseguires reconhecer:
isto afetou-me, mas não começou em mim e não depende apenas de mim resolvê-lo.
Sem essa separação, podes chegar ao fim do dia com um peso difícil de explicar. Não porque tenhas literalmente guardado as emoções de toda a gente, mas porque passaste horas em alerta, a interpretar sinais e a tentar manter o equilíbrio à tua volta.
Cuidar não significa reparar tudo
Quando percebes que alguém está mal, é natural quereres ajudar. Podes perguntar o que aconteceu, oferecer companhia ou criar espaço para a pessoa falar.
O cuidado deixa de ser saudável quando sentes que só podes descansar depois de o outro estar bem.
Há emoções que não podes resolver. Uma pessoa pode precisar de tempo, silêncio ou simplesmente do direito de ter um dia difícil sem que alguém tente imediatamente mudar aquilo que sente.
Quando corres sempre a melhorar o ambiente, também podes retirar ao outro a oportunidade de compreender e atravessar o próprio estado.
Ao mesmo tempo, colocas-te numa função impossível: garantir que todas as pessoas à tua volta permanecem bem para que tu também possas sentir-te em segurança.
Talvez seja útil perguntar:
esta pessoa precisa realmente que eu faça alguma coisa ou sou eu que estou desconfortável por vê-la assim?
A resposta pode ajudar-te a distinguir presença de controlo. Estar presente significa mostrar disponibilidade. Assumir o controlo significa sentir que o resultado emocional da outra pessoa depende de ti.
Voltar a perguntar como estás
Separar aquilo que é teu do que pertence aos outros não exige que te tornes distante ou indiferente.
Podes continuar a reparar, a cuidar e a perguntar. A mudança está em não abandonares imediatamente a tua própria experiência quando alguém entra na sala com um humor diferente.
Da próxima vez que sentires o ambiente mudar, experimenta fazer duas perguntas. Primeiro:
o que sei realmente sobre o que esta pessoa está a sentir? Depois:
o que está a acontecer em mim neste momento?
Percebes que tens medo de ter feito alguma coisa. Surge vontade de agradar, de evitar conflito ou de recuperar rapidamente a tranquilidade. Reconhecer essa reação permite-te escolher o que fazer, em vez de começares automaticamente a gerir o ambiente.
Podes perguntar à pessoa se está tudo bem e aceitar a resposta que receberes. Podes oferecer ajuda sem assumires que tens de a convencer. Também podes continuar a tua noite sem interpretar o silêncio como uma tarefa que te foi entregue.
Na
Sintonia, este é um dos movimentos que vamos aprofundando ao longo do tempo: observar aquilo que te afeta, perceber o que estás a assumir como responsabilidade tua e criar espaço para voltares a reconhecer as tuas próprias emoções.
Não se trata de deixares de sentir os outros. Trata-se de não desapareceres sempre que alguém à tua volta sente alguma coisa.
A pessoa pode estar em baixo e tu podes continuar em paz. Pode estar irritada sem que tenhas feito algo errado. Pode precisar de apoio sem que tenhas de resolver tudo.
O estado emocional dos outros merece cuidado. O teu também.