A tua perna não para de abanar. Nem sempre é energia a mais.
Porque te custa permanecer parado, chegar ao fim de um filme sem te levantares e deixar existir um momento em que nada precisa de ser feito.
A dificuldade em permanecer parado pode ter várias explicações. Em alguns momentos, porém, o movimento tornou-se uma resposta automática a qualquer pausa. A perna abana, as mãos procuram alguma coisa para fazer e até o descanso acaba preenchido por tarefas, ecrãs e pequenos estímulos.
O problema não está em te mexeres. Está em já não perceberes se escolheste fazê-lo ou se qualquer instante sem ação se tornou desconfortável. A mudança começa quando ganhas consciência do que acontece antes do movimento e recuperas o espaço para escolher. É esse regresso a ti e às tuas escolhas que a
Estás sentado numa reunião e, por baixo da mesa, a tua perna começa a abanar. Não decidiste fazê-lo. Quando reparas, já está a acontecer há vários minutos.
A mão mexe na caneta, dobra a ponta de um papel ou procura o telemóvel. Pousas uma coisa e pegas noutra. Parece que alguma parte de ti precisa de continuar ocupada, mesmo quando não existe nada que precises realmente de fazer.
Ao fim do dia, colocas um filme para descansar. Cinco minutos depois, levantas-te para ir buscar água. Quando regressas, lembras-te de uma coisa que podias arrumar. Depois pegas no telemóvel apenas para ver as horas e, quando reparas, já passaram quinze minutos.
O filme está a acontecer. Tu também estás ali. Mas nunca chegaste verdadeiramente a sentar-te.
Há pessoas que dizem que têm muita energia. Outras dizem que sempre foram inquietas e que não conseguem ficar sem fazer nada. Até pode ser. Mas há uma pergunta que vale a pena fazer:
o que sentes quando não tens absolutamente nada para fazer durante alguns instantes?
Os momentos vazios que preenches sem perceber
Repara no que acontece numa fila de supermercado.
Ainda mal paraste e a mão já foi ao telemóvel. No semáforo, os dedos começam a bater no volante. Enquanto esperas que o micro-ondas termine, procuras alguma coisa para arrumar na bancada.
São segundos. Não havia propriamente tempo para fazer nada. Ainda assim, ficar ali à espera parece demasiado.
O gesto é tão rápido que raramente o questionas. A vida cria uma pequena pausa e tu preenches imediatamente esse espaço.
Nem sempre estás a fugir de uma grande emoção escondida. Muitas vezes, habituaste-te apenas a viver com a atenção sempre ocupada. Existe constantemente uma mensagem, uma tarefa, um assunto para resolver ou qualquer coisa que ainda podias adiantar.
Quando nada disso está presente, aparece um vazio que já não sabes muito bem como habitar.
Então mexes-te. Procuras o telemóvel. Levantas-te. Inventas uma pequena tarefa.
Não porque aquela tarefa seja importante, mas porque fazer alguma coisa se tornou mais familiar do que simplesmente permanecer onde estás.
Há uma diferença entre movimento e presença
Durante muito tempo, podes ter associado estar em movimento a estar presente na vida.
És a pessoa que faz, resolve, organiza e não deixa as coisas para depois. Há sempre qualquer coisa a avançar quando estás por perto.
Essa capacidade pode ter-te ajudado muito. Durante muito tempo, foi ela que te ajudou a construir a vida que tens hoje. O problema aparece quando já não consegues desligá-la, mesmo nos momentos em que nada depende de ti.
Sentas-te, mas continuas à procura da próxima coisa. Descansas, mas precisas de estar a consumir alguma coisa ao mesmo tempo. Vês televisão enquanto respondes a mensagens. Caminhas enquanto fazes uma chamada. Tomas banho enquanto organizas mentalmente o dia seguinte.
O corpo muda de atividade, mas a tua atenção continua sempre de serviço.
E é possível viver assim durante tanto tempo que deixas de reparar no cansaço. A inquietação mantém-te em movimento e o movimento ajuda-te a não sentir imediatamente o quanto estás cansado.
Talvez seja por isso que, em alguns dias, te sintas esgotado e agitado ao mesmo tempo. Queres parar, mas não consegues pousar. Quando finalmente te sentas, alguma coisa dentro de ti continua a perguntar:
e agora, o que fazemos?
Quando descansar também tem de ser produtivo
Há uma coisa em que tenho reparado: muitas pessoas já não descansam apenas para descansar.
Leem para aprender. Caminham para cumprir uma meta. Ouvem alguma coisa útil enquanto cozinham. Até uma tarde no sofá precisa de ser justificada pela semana difícil que tiveram.
O descanso tornou-se mais uma coisa que precisa de produzir um resultado.
Podes dizer que estás parado, mas continuas a receber estímulos, a resolver pequenas tarefas e a alimentar a sensação de que o tempo tem de ser aproveitado.
Não há nada de errado em fazer duas coisas ao mesmo tempo. A questão é perceber se ainda consegues escolher ou se já sentes que um momento simples, sem utilidade e sem distração, é tempo desperdiçado.
Quando foi a última vez que esperaste por alguma coisa sem pegares no telemóvel?
Quando foi a última vez que te sentaste sem procurares imediatamente uma forma de ocupar as mãos ou a cabeça?
É possível que nem te lembres. Porque te habituaste a atravessar as pausas antes de chegares verdadeiramente a elas.
O que acontece quando não te levantas
Ficar parado pode tornar algumas coisas mais visíveis.
Percebes que estás preocupado com uma conversa. Surge uma irritação que foste adiando durante o dia. Ou aparece apenas o cansaço que não sentias enquanto estavas ocupado.
Também pode não aparecer nada de especial. Apenas uma impaciência, uma vontade de fazer qualquer coisa e a sensação de que devias estar noutro lugar.
O mais importante não é encontrares uma explicação profunda para cada movimento. É começares a perceber que existe um instante entre o desconforto e a ação.
A perna começa a abanar. A mão dirige-se ao telemóvel. Surge a vontade de te levantares.
Nesse instante, podes reparar no que está a acontecer antes de responderes automaticamente.
Não tens de te obrigar a ficar quieto. Isso transformaria a consciência em mais uma forma de controlo. Podes simplesmente perguntar:
há alguma coisa que quero mesmo fazer ou estou apenas a tentar preencher este momento?
Em alguns momentos, vais continuar a levantar-te. Noutros, permaneces sentado mais alguns segundos.
A diferença parece pequena. Mas é nesse espaço que deixas de reagir e voltas a escolher.
Voltar a perceber quem está a decidir
A consciência não serve para vigiares ainda mais o teu comportamento. Serve para perceberes aquilo que fazes sem nunca teres decidido fazer.
Há comportamentos que começaram como respostas úteis e que continuaram muito depois de deixarem de ser necessários. Não estão errados. Apenas se tornaram automáticos.
É este tipo de observação que a
Origem propõe ao longo de sete dias. Não para te ensinar a permanecer imóvel nem para explicar todos os sinais do corpo através das emoções. A Origem ajuda-te a reconhecer onde estás a viver em piloto automático, o que está por trás dessas respostas e onde podes recuperar espaço para escolher de outra forma.
Porque a mudança não começa no dia em que controlas a perna, deixas o telemóvel longe ou consegues chegar ao fim de um filme sem te levantares.
Começa no momento em que percebes porque te custa tanto permanecer ali.
Há movimentos do corpo que podem ter causas físicas e que merecem atenção profissional, sobretudo quando são intensos, recentes, perturbam o sono ou são acompanhados por desconforto. Ter consciência também significa não transformar tudo numa explicação emocional.
Mas, quando o movimento aparece sempre que a vida abranda, observa o que a pressa te tem ajudado a não sentir.
Da próxima vez que a tua perna começar a abanar, não tentes pará-la imediatamente.
Repara primeiro. Pode não ser energia a mais. Ainda não aprendeste a confiar nos momentos em que nada precisa de acontecer.